Tiradentes – Entre o privado e o público
Não, Tempo, não zombarás de minhas
mudanças!
As pirâmides que novamente construístes
Não me parecem novas, nem estranhas;
Apenas as mesmas com novas vestimentas.
William Shakespeare, O Tempo.
O
cantor Cazuza (1958-1990) fez grande sucesso com sua música O Tempo não para,
de sua autoria e a parceria com Arnaldo Brandão. A canção apresentou um recorte
do seu tempo e tratou das contradições da sociedade brasileira, embora já na redemocratização
permanecia conservadora e sobretudo “moralista”. Muito antes, o poeta Shakespeare
(1564-1616) refletia sobre o tempo, ao abordar as “novas pirâmides” – ou seja,
as experiências humanas, quando o “novo”, conseguia apenas reproduzir os
acontecidos, só a repetir as mesmas coisas, sem constrangimento em disfarçar
que seguia o mesmo modelo adotado em tempos anteriores.
O “muro de Berlim” em construção pela Copasa, a pedido da Prefeitura e aprovado pelo Iphan. Fotografia: Luiz Cruz.
Em
Tiradentes, os erros se repetem. Ninguém está preocupado em escarafunchar o
passado para aprender e crescer enquanto cidadãos e principalmente como “gestores
públicos”.
E
como o tempo não para, continuamos com Cazuza: “Eu vejo o futuro repetir o
passado / Eu vejo um museu de grandes novidades / O tempo não para / Não para
não, não para”. Em pleno ano de 2025, Tiradentes ganhou um “muro de Berlim”, construído
pela Copasa.
A
comunidade ficou perplexa com a iniciativa da Copasa em edificar um muro de
blocos de concretos atrás de um muro de pedra. Houve uma comoção na cidade.
Para
evitar desinformação, estivemos pessoalmente na Copasa para conversar com o
gerente, o Ronaldo José da Silva, e obter informações sobre tal construção, na
Praça da Estação, que oficialmente é a Praça Lamounier Junior, onde está a edificação
da Estação do Trem, da EFOM – a integrar o Complexo Ferroviário de São João
del-Rei-Tiradentes. Um patrimônio que conta com o instrumento de tombamento
federal, pelo Iphan, registrado no Livro de Belas Artes, Inscrição: 596 e
no Livro Histórico, Inscrição: 528, através do Processo Número
1185-T-85, de 3 de agosto de 1989.
A
Copasa foi instaurada em 1963, como uma das iniciativas da política de
saneamento em Minas Gerais e é a responsável pela captação, tratamento e abastecimento
de água em Tiradentes, bem como a coleta e o tratamento de esgoto sanitário.
Indagado sobre a construção do “muro de Berlim”, o gerente relatou que a Prefeitura
notificou a Copasa, porque a área se encontrava aberta, com entulho e sendo
utilizado por usuários de drogas.
Diante
da notificação e orientação da Prefeitura de Tiradentes, das áreas de Meio
Ambiente e de Epidemiologia, a Copasa solicitou autorização para a construção
do muro e fechar o terreno, junto à ponte e o acesso à margem do Rio das
Mortes. O Iphan recebeu a solicitação e aprovou imediatamente a construção do
“muro de Berlim”, com a altura de 2,20m, conforme o documento apresentado
abaixo.
Documento expedido pelo Iphan, autorização e orientação para a construção do “muro de Berlim”, com 2,20m de altura. Arquivo: Copasa. Fotografias: Luiz Cruz.
A
Copasa nunca limpou o terreno, que segundo o gerente é de propriedade dela.
Então, perguntamos:
–
Se jogaram entulho, porque a Copasa não limpou? O gerente respondeu: – não
limpamos porque não foi a Copasa que sujou.
Ponderamos:
– A Prefeitura limpa o Largo das Forras, cedo, logo fica sujo; a Prefeitura não
vai limpar mais porque já o fez mais cedo? Se fez silêncio...
Indagamos:
– Quem terá acesso às margens do Rio das Mortes? Caso os alunos da Escola
Estadual Basílio da Gama tiverem a iniciativa de estudar ou visitar as margens
do rio, como será?
Ele
respondeu: – Caso agendarem com antecedência, poderão ter acesso à entrada do
rio.
Continuamos:
–
Quem terá acesso à essa entrada?
–
O proprietário do terreno dos fundos terá uma cópia da chave do cadeado.
–
Quem é esse proprietário?
–
Não sei quem é.
O
caso do “muro de Berlim” de Tiradentes é nebuloso. A Copasa tem um vizinho que
abriu um acesso ao lado de sua propriedade – acesso que nunca existiu, e ainda
entregará a chave do cadeado do portão a uma pessoa que diz não conhecer e nem
saber quem é. Será que alguém da cidade conhece tal proprietário? Será que esse
proprietário é o famoso ET de Varginha?
Percorremos
área em questão. Lá tem entulho, sim. Está sujo, sim. Mas parece que há tempo
não jogam entulho naquele terreno.
Acesso à margem do Rio das Mortes, “servidão pública”, área que será fechada pela Copasa. Fotografia: Luiz Cruz.
Curiosa
a iniciativa da Prefeitura em solicitar a construção desse muro. É a atual
Administração saindo a campo para agir para o interesse privado, obscuro, a
sobrepor o interesse público. Isso já ocorreu na Candonga, na Várzea do Gualter
e agora com a construção do “muro de Berlim”, em área de servidão pública.
Construir
um muro e subtrair a Paisagem do cidadão, não resolve o problema da sujeira e
muito menos de “drogados”. Imagine se usurários de substâncias ilícitas vão se
atolar no barro das margens do Rio das Mortes... A qualquer hora do dia ou da
noite, eles estão bem no centro da Praça da Estação, ou na Praça Vereador
Teófilo Nascimento – mais conhecida como Praça da Dona Zulica. Ou, ainda, no
Alto de São Francisco. Será que a Copasa, a Prefeitura e o Iphan mandarão
construir muros de 2,20m de altura para isolar esses logradouros?
Essa
justificativa é pífia e menospreza a inteligência do povo!
A
antiga ponte de concreto que desabou em 1997, causou muitos danos. Continua até
o presente a causar problemas e perigo, porque os seus escombros estão na calha
do Rio das Mortes. A ferragem da ponte exposta funciona como uma armadilha fatal.
É debaixo da atual ponte, em meio a esses escombros, que chegam os canos da
Copasa a jorrar o esgoto in natura no histórico Rio das Mortes.
Desabamento da ponte sobre o Rio das Mortes, 1997. Até o presente, seus escombros ainda se encontram na calha do rio. Fotografia: Luiz Cruz.
Esgoto coletado e jogado debaixo da ponte sobre o Rio das Mortes, na Praça da Estação, em Tiradentes. Fotografia: Luiz Cruz.
Esgoto coletado e jogado debaixo da ponte sobre o Rio das Mortes, na Praça da Estação, em Tiradentes. Fotografia: Luiz Cruz.
A
atual Administração Municipal se revela cada vez mais inimiga do Meio Ambiente
e dela pode-se esperar de tudo. Óbvio! Depois que o órgão federal da proteção
do patrimônio brasileiro, o Iphan, aprovou o projeto do Condomínio Fechado Tiradentes
Ville, que é a maior violência contra patrimônio cultural e ambiental de
Tiradentes; depois que o Iphan aprovou aquele projeto ridículo na Rua Ministro
Gabriel Passos, antiga Rua da Praia, com quatro caixotes com volumetria
excedente e a competir com os principais elementos arquitetônicos da Paisagem
local – com um dos caixotes a concretar a nascente, o “Olho D’Água” do terreno,
podemos esperar as aprovações mais bizarras em Tiradentes.
O
documento expedido pelo Iphan afirma não reconhecer a origem da propriedade. Qualquer
cidadão para solicitar análise de obra junto ao Iphan deve apresentar a
“escritura” da propriedade. Ficamos na dúvida, a área de servidão pública é da
Copasa, ou é da municipalidade? Aqui, indagamos à Câmara Municipal de
Tiradentes uma resposta. Afinal, aquela servidão pública é propriedade de quem?
As
obras que a Copasa realizou na margem do Rio das Mortes foi em consequência da
bomba de captação de água, a provocar o seu desmoronamento, isso registramos
fotograficamente, ao longo dos anos.
Obra de contenção da margem do Rio das Mortes, em decorrência de desmoronamento. Fotografia: Luiz Cruz.
Obra de contenção da margem do Rio das Mortes, em decorrência de
desmoronamento. Fotografia: Luiz Cruz.
Tudo
fica mais complexo e desanimador, as autoridades constituídas se esforçam para
descaracterizar a unidade do nosso Conjunto Arquitetônico e Urbanístico,
tombado desde 1938. E o Iphan, a quem devemos a conservação do nosso Patrimônio
Cultural, o Iphan segue traindo a si mesmo.
Bem,
retornemos ao caso do “muro de Berlim” de Tiradentes. A Copasa é a responsável
pelo abastecimento de água, coleta e tratamento de esgoto da cidade de
Tiradentes. Mensalmente chega à casa do cidadão uma conta a ser paga. Mas a
Copasa cobra por um serviço que não presta e já se acumulam os anos de cobrança
sem a retirada do esgoto do Ribeiro Santo Antônio. Todos os córregos da cidade
recebem esgoto. Todos estão poluídos. O esgoto coletado pela Copasa é jogado escondido
dos olhos da população, debaixo da Ponte do Rio das Mortes, no mesmo local que
existiu a “Ponte do Cuiabá”.
Então,
diante da preocupação da Prefeitura com entulho e “drogados” ao lado da Copasa,
questionamos ao gerente se havia preocupação com o esgoto jogado em todos os
fluxos de água da cidade e perguntamos:
–
A Prefeitura já notificou a Copasa por poluir os nossos córregos? – Não!
–
O Iphan notificou a Copasa pela poluição dos córregos e pelo odor de esgoto que
exala das bocas de lobo do centro histórico de Tiradentes? – Não!
–
A Polícia Militar do Meio Ambiente de Minas Gerais já notificou ou multou a
Copasa por poluir os córregos, o Ribeiro Santo Antônio e o Rio das Mortes? –
Não!
Lixo
e entulho são um dos graves problemas da cidade. Não há local para receber
entulho. Na Várzea do Cacheu, área destinada ao Parque Municipal Frei Veloso, é
onde a Prefeitura desova o entulho. O lixo – a coleta, o transbordo e
transporte dos resíduos de Tiradentes, é levado para Juiz de Fora, ação que custa
uma verdadeira fortuna para a municipalidade; de uma localidade que sobrevive
basicamente do FPM – Fundo de Participação dos Municípios. Todos os recursos provenientes
da área ambiental, inclusive da preservação da Serra de São José, vão para as
contas altíssimas dos resíduos. Solução com custo elevadíssimo e sem resolver a
problemática condignamente.
Ficou
claro. Claríssimo! Não há nenhuma ação efetiva de proteção ao Meio Ambiente com
o “muro de Berlim”. A iniciativa da Prefeitura de Tiradentes com a notificação
à Copasa e o muro têm cunho de interesse privado, obscuro, para beneficiar
alguém. É o interesse particular a sobrepor o público.
Aqui
é importante lembrar da Várzea do Cacheu, em especial a Viturina, local de
lazer e entretenimento dos tiradentinos, junto à margem do Rio das Mortes. A
Prefeitura vendeu a área, fecharam, colocaram um portão e um cadeado. Provavelmente,
os mais jovens locais nem sabem o que representou a Viturina para o nosso
cotidiano. Há um apagamento da memória e isso só fortalece o severo processo de
gentrificação. A população vai perdendo suas referências, suas vivências. Fica
cada vez mais excluída de seus elementos identitários.
“Muro de Berlim” em construção pela Copasa, a pedido da Prefeitura e aprovado pelo Iphan. Fotografia: Luiz Cruz.
Afinal,
tal acesso às margens do Rio das Mortes é uma área de servidão pública. Sucessivas
famílias foram criadas com o material retirado das margens do rio, o cascalho e
a areia. Foi onde tropas e carros de boi paravam, para dar água aos animais.
Essa é uma área em que os pescadores sempre utilizaram.
Infelizmente,
o poder público municipal conduziu o Iphan para esse caso obscuro, exatamente
como o governo do estado de Minas Gerais levou o órgão federal para a escusa
história da mineração na Serra do Curral.
O
governador Zema vem ao longo tempo desconstruindo a Copasa, a arruinar suas
finanças, jogando os seus dividendos na vala profunda causada por sua
administração desastrosa. Zema quer mesmo é faturar muitos milhões com a
privatização da Copasa, exatamente como a extrema direita atua contra o povo.
Essa privatização será muito danosa, principalmente para Tiradentes. Já tivemos
períodos longos de falta de abastecimento. Para não desabastecer os serviços
turísticos, os bairros ficavam sem água. Um dia registramos a indignação de um
grupo de moradores do bairro Mococa na porta da Copasa, cobrando o
abastecimento. A água não chegava, mas pontualmente a conta era entregue na
casa de cada morador dos bairros.
Moradores do Bairro Mococa, na porta da Copasa a clamar por abastecimento de água. Fotografia: Luiz Cruz.
A
Copasa não está nada bem, porque o governo de Minas que é do “Novo”, partido político
que se alia à devastação ambiental. Ao tempo em que o Iphan trai a si mesmo,
denigre sua imagem e sua história. Enquanto
à Administração municipal, como tratou Shakespeare, as coisas são “Apenas as
mesmas com novas vestimentas”. Os equívocos da Administração Municipal se
repetem, o interesse privado a sobrepor o interesse público – falta
transparência, falta ética, falta hombridade.
Luiz
Antonio da Cruz
Disponível em:
https://luizcruztiradentes.blogspot.com/2023/10/ponte-do-cuiaba-historia-memoria-e.html
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