Adoração ao Menino Deus:
da Materialidade à Imaterialidade
Eu guardo, desde menino,
Na gruta do coração,
O presépio que fazia
Com ternura e comoção. [...]
Dá-me, Menino Jesus,
Da antiga infância a simpleza
Para Te amar, e adorar
Com maior fé, mais pureza.
Dom Oscar de Oliveira, Meu Presépio,
Estância de Saudades.
Segundo
a lenda, o primeiro presépio foi montado por São Francisco de Assis, em 1223, com
poucas imagens: a Sagrada Família, o irmão boi e o irmão jumento, com as
figuras criadas em barro, colocadas em um recanto. O local escolhido foi uma
gruta, da floresta na região de Greccio, na Itália. As representações da
Natividade de Cristo remontam do século III, especialmente na escultura e
pintura. Nas primeiras obras, aparecem apenas a Senhora e o Menino, conforme afresco
da Catacumba de Priscila, em Roma. Nessa cena o profeta Balaão – um personagem
do Livro dos Números, aponta para a estrela que brilhava no céu.
A Senhora com o Menino Deus e o profeta Balão, afresco, século III, Catacumba de Priscila, Roma. Imagem disponível na internet.
Com
o passar do tempo, a figura de São José passou a compor a cena com os demais
personagens. A Natividade conquistou maior popularidade a partir do século XIV,
com representações na escultura, pintura e gravura. Um dos artistas a inovar a
cena, com suas soluções pictóricas, foi Giotto di Bondone (1267-1337), com Adoração
dos Reis Magos, em seus afrescos da Igreja de Santo Antônio, em Pádua, na
Itália.
Adoração dos Reis Magos, Giotto, afresco, Pádua, Itália. Imagem disponível na internet.
A
tradição em montar o presépio se expandiu por toda a Europa e outras partes do
mundo. Herdamos dos portugueses esse costume. Os presépios em Portugal ganharam
outra dinâmica, passaram a ser confeccionados em cerâmica e com profusão de
personagens e detalhes. Vários escultores portugueses se destacaram na
confecção de presépios, um deles foi Joaquim Machado de Castro (1731-1822). Tradição
comum na Itália e em Portugal, mas de maneira geral, os presépios italianos são
de roca, ou seja, as figuras têm uma estrutura em madeira ou outro material,
com a cabeça, as mãos e pés esculpidos, vestidas com as indumentárias específicas
de cada personagem.
No Brasil, no Museu de Artes Sacra de São Paulo, podemos apreciar um grande presépio procedente da Itália, napolitano, setecentista, com cerca de 1600 peças, com uma riqueza de detalhes e expressiva diversidade de tipos humanos, especialmente no entorno central, com São José, Maria e o Menino Deus. Nos diversos ambientes, encontramos figuras do cotidiano, a executar os seus fazeres, a nos permitir a compreensão do modus vivendi daquele período. Dentre tantos detalhes, observamos um homem na torre de uma edificação, em uma escada, no interior do campanário.
Cena central do Presépio Napolitano, Museu de Arte de São Paulo-SP. Fotografia: Luiz Cruz.
Torre com campanário, Presépio Napolitano, Museu de Arte de São Paulo. Fotografias: Luiz Cruz.
Detalhe das partes de um dos personagens do Presépio Napolitano, o corpo e as partes esculpidas. Museu de Arte de São Paulo-SP. Fotografia: Luiz Cruz.
Com
solução escultórica diferente do presépio napolitano, encontra-se no acervo do
Museu de Arte Sacra de São Paulo, o presépio procedente de Tiradentes-MG, que
pertencera à família Veloso, que vivia na Rua Padre Toledo, número 13. Esculpido em terracota, policromado, bem ao
gosto dos presépios portugueses, com refinamento e certo eruditismo. Alguns personagens
são apresentados individualmente, outros em blocos. Há alguns com partes
recortadas. Como as peças foram queimadas, as partes traseiras têm aberturas,
para evitar rachaduras.
Na
casa dos Veloso, esse presépio ficava armado na sala de visitas, o ano todo,
com as peças principais. Somente nos tempos natalinos se montava completo. Em
2025, esteve exposto no Museu de Arte Sacra de São Paulo, está devidamente
restaurado e atualmente se encontra na reserva técnica desse museu.
A Senhora com o Menino Desus e São José. Presépio em terracota, policromado, procendente de Tiradentes-MG. Acervo: Museu de Arte Sacra de São Paulo-SP. Fotografrias: Luiz Cruz.
São José e os pastores. Presépio em terracota, policramado, procendente de Tiradentes-MG. Acervo: Museu de Arte Sacra de São Paulo-SP. Fotografria: Luiz Cruz.
Peça em bloco e peça individual. Presépio procedente de Tiradentes-MG. Acervo: Museu de Arte Sacra de São Paulo-SP. Fotografria: Luiz Cruz.
Peça com a abertura para a queima. Presépio procedente de Tiradentes-MG. Acervo: Museu de Arte Sacra de São Paulo-SP. Fotografria: Luiz Cruz.
Em Tiradentes, na mesma Rua Padre Toledo, no número 106, na
alcova, a família Lopes da Cruz deixava o presépio armado o ano todo. Era
mantido pelas irmãs solteiras Conceição e Belica. O cenário era surpreendente,
com diversidade de edificações, elaboradas com os mais diversos materiais e bem
coloridas. Nos ambientes, ficavam os personagens, alguns eram bonecas de celuloide
vestidas de anjos.
Presépio do família Lopes da Cruz, armado na alcova da casa, Rua Padre Toledo, número 106. Fotografia: João Batista Ramalho, decáda de 1930. Acervo Eliane Ramalho. Arquivo: Luiz Cruz.
Conceição Lopes foi uma das preparadoras de “pastorinhas”,
que saiam a visitar os presépios das igrejas e das residências.
A cantora lírica, Olinda Rocha, que viveu na Rua da Câmara, também preparou muitas meninas para serem as “pastorinhas” visitadoras de presépios. Dona Lena Lopes, sobrinha de Conceição Lopes também foi pastorinha, contribuia com Olinda Rocha nos ensaios das meninas e posteriormente, na décade de 1970, fez o resgate dessa manifestação cultural dos tempos natalinos.
As fontes inspiradoras
Com as grandes navegações e a partir da circulação das obras
de arte, objetos e principalmente dos impressos – tais como as gravuras
avulsas, os registros de santos, bíblias e missais, as informações visuais
chegaram por todos os cantos do planeta. Os artífices tinham contato com as
imagens e se apropriavam de suas informações para criar suas obras, nos mais
diversos suportes, dentre essas obras os presépios.
Além dos impressos citados acima, torna-se necessário
destacar que os tratados de arquitetura, de ornamentação e de pintura também
circularam, inclusive na capitania de Minas Gerais, no período colonial. Em
alguns inventários post mortem de artífices mineiros com expressiva
atuação na arte da ornamentação pictórica de edificações religiosas. Deixaram
essas obras registradas, em especial pelo professor de pintura João Nepomuceno
Correia Castro e o pintor e cartógrafo Caetano Luiz de Miranda.
A adoração dos pastores, gravura em metal, Ioan Sadeler, 1599. Acervo Biblioteca Nacional, RJ.
A
gravura em metal avulsa foi produzida por diversos artistas e por terem
reprodução mais numerosa, em tamanhos reduzidos, eram mais fáceis de circular e
chegar a tantos destinos. Em Belo Horizonte, na Casa Fiat de Cultura, localizada
na Praça da Liberdade, 10, podemos apreciar a fabulosa exposição: Rembrandt
– O mestre da luz e da sombra, que apresenta 69 gravuras originais do
gravador holandês Rembrandt H. van Rijn (1606-1669), com temas sacros, retratos,
cenas do cotidiano e a Adoração dos Pastores. Essa exposição é oportunidade ímpar para apreciar
as obras desse exímio gravador.
Na
antiga Vila de São José, a atual Tiradentes-MG, com certeza os impressos
circularam, em especial o Missale Romanum, Antuerpiae, Plantiniana, de 1724,
com edições consecutivas; eles foram as principais fontes inspiradoras para a
criação de obras artísticas. Nesse caso, merece destacar o conjunto de telas da
Matriz de Santo Antônio, que ficava exposto nos muros da nave. As telas foram pintadas
a partir das cenas dos missais do acervo da própria Paróquia de Santo Antônio. São
oito obras, no primeiro grupo estão: Anunciação, Natividade, Epifania
(ou Adoração dos Reis Magos) e Ascensão de Cristo e o segundo
com as cenas dos doutores da Igreja: São Jerônimo, São Gregório, Santo Ambrósio
e Santo Agostinho.
Ao visitar essa igreja, o viajante Richard Burton (1821-1890) registrou em Viagem do Rio de Janeiro a Morro Velho (1976, p. 131):
O estilo é barroco, ou velho jesuítico, e se parece com o de São Bento, no Rio de Janeiro; é, contudo, mais primitivo, pretensioso e grotesco. A nave é retangular, com afrescos muito sem arte, de santos em tamanho natural, Gregório e Ambrósio, Agostinho e Jerônimo, além da Anunciação, dos Reis Magos e do curral ou presépio de Belém. (grifo nosso).
Atualmente esse conjunto de telas se encontra restaurado e exposto no Santuário da Santíssima Trindade, duas das obras retratadas aqui, Epifania e a Adoração dos Pastores, ambas tiveram as imagens de missal como fonte de inspiradora, conforme a gravura abaixo. Na ausência de documentação e após a restauração desse conjunto, com a remoção de repintura e a recuperação das perdas dos suportes pictóricos, tornou-se possível melhor análise das características / tipologia com mais detalhes. Há que se considerar o conjunto de estilemas desenvolvidos pelo mestre pintor Manoel Victor de Jesus, encontrados nessas obras.
Página de missal, com a gravura Adoração dos Pastores e pintura da mesma cena.Têmpera sobre tela, século XVIII /XIX. Acervo da Paróquia de Santo Antônio, Tiradentes-MG. Fotografias: Luiz Cruz.
A
tradição dos presépios
No Brasil, a partir do período colonial, o presépio se popularizou e foi armado nas edificações religiosas e civis. As cenas diversas a envolver a Senhora e o Menino Deus ornamentam diversas igrejas e conventos no Nordeste brasileiro, em azulejaria, produzida em Portugal, conforme se observa na Igreja do Senhor do Bonfim, de Salvador-BA.
Epifani ou Adoração dos Reis Magos, azulejaria da Igreja do Senhor Bom Jesus do Bonfim, Salvador-BA, 1746 / 1754. Fotografia: Luiz Cruz.
Alguns
presépios eram montados em redomas, caixas de vidro, em oratórios e registros
de santos, a maioria armada especialmente no tempo do Advento. Um desses
exemplares em caixa de vidro, com frisos pintados e dourados, pode ser
apreciado no Museu da Inconfidência, em Ouro Preto-MG. As figuras foram
esculpidas em madeira e policromadas, com muitos detalhes, anjos, conchas, flores
e rochas.
Os
oratórios mineiros conhecidos como oratórios-lapinha, produzidos entre os
séculos XVIII e XIX, trazem cenas da vida de Cristo, na base, geralmente, a
cena da Natividade. O oratório-lapinha, na maioria dos exemplares, tem o
formato vertical, entalhados, policromados e com frisos dourados. São facetados e fechados com vidro. As
esculturas em calcita contrastam com a pintura fundeira em fingimento têxtil.
No Museu do Oratório, em Ouro Preto-MG, exemplares de oratório-lapinha podem
ser apreciados; também no Museu Boulieu, em Ouro Preto, no Museu Mineiro, em
Belo Horizonte-MG e no Museu de Arte Sacra de São Paulo, em São Paulo-SP.

Oratórios-lapinha,
século XVIII, exemplares do Museu do Oratório. Ouro Preto-MG. Fonte: Museu do Oratório.
OratórioS-lapinha, século XVIII, Museu de Arte Sacra de São Paulo-SP. Fotos: Luiz Cruz.
A
Irmandade de São Francisco de Assis de Ouro Preto teve um presépio esculpido em
madeira e policromado, da fatura de Antônio Francisco Lisboa (1737-1814) – o
Aleijadinho. Do conjunto subsistem apenas quatro peças duas inteiramente
esculpidas e duas de roca.
Peças do presépio da Capela de São Francisco de Assis, século XVIII, autoria do mestre Aleijadinho. Museu da Inconfidência. Ouro Preto-MG. Fotografias: Eugênio Sávio.
Ao longo do tempo, muitos presépios antigos acabaram perdidos ou em coleções particulares. Peças avulsas de presépios setecentistas podem ser apreciadas em museus, como o da Inconfidência, de Ouro Preto, Museu Regional de São João del-Rei-MG e no Museu do Diamante, em Diamantina-MG.
As
Folias de Reis
É
herança da cultura portuguesa que se aportou no Brasil e se enraizou por esse
território de dimensão continental. As Pastoradas, Reisadas e Janeiras, como são
referidas em Portugal, vem de longa tradição europeia. São as manifestações da
cultura popular, de se apresentar nas casas as cantigas que versam sobre a
Natividade de Jesus, a Visita dos Pastores e a Visita dos Reis Magos ao Menino
Deus, em sua manjedoura.
No
Brasil, as Reisadas foram se adaptando a cada localidade, de acordo com os
recursos disponíveis e se tornando um dos elementos formadores da identidade de
cada lugar. As Pastoradas receberam desdobramentos, além das Folias de Reis. Em
outras ocasiões, saem também as Folias de São Sebastião, Folias do Divino
Espírito Santo, Folias de São José, Folias do Sagrado Coração de Jesus e Folias
de Nossa Senhora Aparecida.
As
Folias de Reis resistem em alguns municípios do Campo das Vertentes. São grupos
organizados, com músicos, cantores, os palhaços e a bandeira, sob a coordenação
de um folião. De casa em casa, onde se arma um presépio, caminham
silenciosamente e chegam à porta, para anunciar a adoração ao Menino Deus na
manjedoura. Eles tocam sanfonas, caixas, pandeiros, triângulos e xique-xiques,
com os instrumentos de cordas – cavaquinhos, violas e violões, e o naipe de
vozes. O bandeirista segue à frente com a bandeira ornamentada com a imagem da Adoração
dos Magos. Cantam, o dono da casa abre a porta e recebe a bandeira, conduzida
pelos cômodos para abençoar a propriedade e os moradores. Enquanto os foliões
apresentam os cânticos diante do presépio, a bandeira fica sobre uma das camas
da casa.
Depois
da cantoria, serve-se um café para os foliões. Caso o dono da casa ofereça uma
espórtula, há um canto; ou se acrescentar um enfeite à bandeira, mais um
cântico. Finalmente, o da despedida ao presépio e ao dono da casa, com a
promessa de retornar no próximo ano. As Folias de Reis circulam a partir do Dia
de Natal até o Dia de Santos Reis, no 6 de janeiro.
Canto da chegada da Folia de Reis nas
casas:
Oh!
Que hora tão bonita
Nossa folia chegou
Com a bandeira dos três Reis
Toda coroada de flor
Senhor dono da casa
Sei que vóis está dormindo
Escutai nossa folia
Levanta
devagarinho
A
bandeira veio vindo
Na
sua porta parou
Uma
bandeira de Reis
Toda
enfeitada de flor
Vem
abrir a sua porta
Com
prazer e alegria
Recebei
nossa bandeira
E
também essa folia
Senhores
dono da casa
Pedimos
sua atenção
Aqui
nossa bandeira
É da
sua devoção
Registro
de Edgar Fonseca Almeida, quarto folião da
Folia
de Reis da Caixa D’Água, Tiradentes-MG.
Folia de Reis de Tiradentes, com o Padre José Bernardino, década de 1930. Acervo: Gilson Costa. Arquivo: Instituto Cultural Biblioteca do Ó.
Até
recentemente, apenas os homens participavam das Folias de Reis. Os grupos
circulavam à noite, na cidade ou na zona rural, até o dia clarear. Saiam
independente das condições do tempo, com estrelas e lua no céu, ou com a chuva
típica do final de ano; muitas vezes transitando por caminhos precários, com
poças e muita lama.
Folia de Reis, no Alto da Serra de São José, década de 1940. Fotografia Arquivo: Instituto Cultural Biblioteca do Ó.
O
folião recebe os componentes em sua casa, oferece um café; eles afinam os
instrumentos, fazem uma passagem dos cantos e logo partem, de rua em rua, de
porta em porta, para visitar o presépio e adorar o Menino Deus. O Instituto
Cultura Biblioteca do Ó, quando funcionou no Largo do Ó, tinha o presépio montado
e recebia a Folia de Reis de Tiradentes. Apoiou o grupo com o fornecimento de
uniforme e chapéus com fitas coloridas.
Muitos
foliões que conhecemos e apreciamos em nossa cidade, já partiram, mas deixaram
um legado de religiosidade, devoção e sobretudo de cultura. Saudades dos
foliões Chico Curió, Orlando Curió, Silvério Costa, Pitanga, Ziquinha, Hildo
Rosa, Luizão, Lilito, Chico de Matos e tantos outros. Cada um deixou impressa a sua
contribuição para a manutenção dessa manifestação de gosto popular.
Folia de Reis de Tiradentes, com o Sr. Hildo Rosa, década de 1960. Fotografia Arquivo: Instituto Cultural Biblioteca do Ó.
Atualmente,
o folião Gilson Costa mantém a Folia de Reis de Tiradentes, mas ainda temos a
Folia de Reis da Caixa D’Água, do Elvas, de César de Pina e a de Águas Santas. Mobilizar,
organizar e colocar uma folia na rua tem sido um desafio, por total falta de
apoio a essa manifestação da cultura popular e da religiosidade tão marcante em
nossa História.
Folia de Reis de Tiradentes-MG, visita ao presépio de Ricardo Ribeiro Resende. Fotografia: Luiz Cruz.
Os saudosos foliões Luizão e Hildo Rosa na visita ao presépio de Luiz Cruz. Fotografias: Luiz Cruz.
Os saudosos foliões Orlando Curió e Pitanga na visita ao presépio de Luiz Cruz. Fotografias: Luiz Cruz.
O saudoso folião Lilito, da Folia de Reis da Caixa D’Água, visita ao presépio de Luiz Cruz. Fotografia: Luiz Cruz.
A tradição da montagem dos presépios em Tiradentes e nas cidades da região Campo das Vertentes é expressiva. O casal Antônio Ferreira Gomes e Dona Anésia foi incentivador e inspirador para as montagens. Renato Diniz e Pepe de Cordoba viveram por certo tempo na casa que fora desse casal, na Rua Direita, número 111. Pepe colecionou presépios e conosco foi curador de várias exposições dedicadas à essa tradição. Numa dessas edições, celebramos os “300 anos da Cidade de Tiradentes”, compos tal mostra a primeira bandeira da Folia de Reis Embaixada Santa, de São João del-Rei, atualmente do folião Ulisses Passarelli.
Pepe de Cordoba, curador da exposição Presépios, a registrar os 300 Anos da Cidade de Tiradentes e os 20 Anos de Atividades do Centro Cultural Yves Alves. Fotografia: Luiz Cruz.
Bandeira da Folia de Reis Embaixada Santa, de São João del-Rei, na exposição Presépios, a registrar os 300 Anos da Cidade de Tiradentes e os 20 Anos de Atividades do Centro Cultural Yves Alves. Fotografia: Luiz Cruz.
O
pesquisador e folclorista Ulisses Passarelli se tornou um dos mais importantes
incentivadores das manifestações culturais populares do Campo das Vertentes; por
seu trabalho de campo, registros e divulgação, foi homenageado pelo Projeto
Atitude Cultural, idealizado e coordenado pela produtora cultural Alzira
Haddad.
O pesquisador e folclorista Ulisses Passarelli recebendo homenagem do Projeto Atitude Cultural, coordenado por Alzira Haddad. Fotografia: Luiz Cruz.
A Folia de Reis Embaixada Santa, do folião Ulisses Passarelli no Encontro de Folias de Reis, promovido pelo Projeto Atitude Cultural, coordenado por Alzira Haddad. Fotografias: Luiz Cruz.
Os
Encontros de Folias de Reis promovidos pelo Projeto Atitude Cultural
foram elementares para fomentar e reconhecer a importância dos grupos atuantes
no Campo das Vertentes. Foram oportunidades para a confraternização e o contato
com grupos distintos como a Folia de Reis, da foliã Maria, composto somente por
mulheres.
Folia de Reis da foliã Maria, no Encontro de Folias, promovido pelo Projeto Atitude Cultural. Fotografia: Luiz Cruz.
As
Pastorinhas de Tiradentes
As
donas Olinda Rocha, Conceição Lopes, Lena Lopes, Ana de Menezes, Alice Lima
Barbosa e Lilia Nascimento foram incentivadoras da criação e organização de
grupos de Pastorinhas, que visitaram os presépios a partir do Dia 25 de
Dezembro até o Dia 6 de Janeiro, o dia dos Santos Reis Magos.
Dona
Olinda Rocha era cantora lírica e viveu na Rua da Câmara e conseguiu formar um
grupo que até o presente mantém viva essa tradição. Apesar de ter ocorrido um
longo período sem a atuação das Pastorinhas; na década de 1970, Dona Lena fez o
resgate e o grupo participou das celebrações na Matriz de Santo Antônio,
percorreu a cidade e visitou os presépios.
As
Pastorinhas preparadas por Dona Olinda Rocha, hoje estão com idade avançada, já
são mães, avós e bisavós. Muitas já partiram para sempre e deixaram saudades.
Dona Naná e a saudosa Dona Dodô, que participaram das Pastorinhas preparadas por Dona Olinda Rocha. Fotografia: Luiz Cruz.
No bairro Várzea de Baixo, Dona Ana de Menezes, preparou e organizou um grupo de Pastorinhas. Foi uma ação muito positiva e necessária para aquela comunidade.
Na
década de 1990, Dona Ana de Menezes montou outro grupo de Pastorinhas, no mesmo
bairro, com o apoio da SAT – Sociedade Amigos de Tiradentes. Eros Miguel
Conceição, o tesoureiro da SAT, acompanhou todo o processo, assistiu aos
ensaios, comprou os tecidos, desenhou as roupas e orientou os trabalhos da
costureira. Tudo feito com muito capricho, como ele gostava. Registramos a
saída desse grupo para a primeira apresentação na Missa de Natal, na Matriz de
Santo Antônio; depois as Pastorinhas seguiram, a visitar os presépios.
Dona Ana de Menezes e as Pastorinhas, saindo da Várzea de Baixo para a Missa de Natal. Década de 1990. Fotografia: Luiz Cruz.
Dona
Lilia – Maria José Nascimento – também foi Pastorinha quando criança. Posteriormente,
adquiriu as peças remanescentes do presépio de Conceição Lopes e o montou na
Capela de Nossa Senhora das Mercês. Sempre animadíssima, participava de tudo da
comunidade, atuou como zeladora e sineira da Capela das Mercês e, mais uma vez,
fez o resgate das Pastorinhas.
Pastorinhas e Dona Lilia, no jardim do Centro Cultural Yves Alves. Tiradentes-MG. Foto: Luiz Cruz.
As Pastorinhas na primaz de Minas Gerais
Mariana,
a primeira vila e capital de Minas Gerais, completou 280 anos de elevação à
cidade – 1745 / 2025. Ao longo do tempo, acompanhamos as diversas manifestações
culturais marianenses, especialmente dos tempos natalinos. Os grupos diversos
das comunidades, de Folias de Reis e de Pastorinhas, visitam os presépios, especialmente
o armado na Praça Gomes Freire. Essas manifestações populares reforçam o
potencial cultural de Mariana, que nos últimos anos tem recebido a maior
pontuação de ICMs Cultural de Minas Gerais. Ou seja, apoiar a cultura, gera
retorno financeiro para o município. A cultura fortalece o senso de
pertencimento e a identidade cultural de cada cidadão e suas comunidades.
Grupo de Folia de Reis Estrela Guia, Mariana-MG. Fotografia: Luiz Cruz.
Palhaços do Encontro de Folias de Reis. Mariana-MG. Fotografias: Luiz Cruz.
O Pastoril de Natal
Em
tempos de aceleradas transformações, o bispo e poeta Dom Oscar de Oliveira já
nos alertava, em 1984:
O
Natal de Jesus o estão esfacelando...
Motivo
é de comércio e vasto consumismo.
Em
nome de Natal há sacrilégio infando,
Com
traição a Jesus num louco mundanismo.
Dom Oscar
de Oliveira, Que Natal, Estância de Saudades.
Recentemente,
impulsionado pelo comércio, a essência do Natal vem perdendo fôlego. O
principal personagem que é o Menino Deus, a cada ano tem sido superado pela
figura do consumismo, que é o Papai Noel, a representar o “presente natalino”.
O
poeta Manuel Bandeira, salientou:
O
nosso menino
Nasceu em Belém.
Nasceu tão-somente
Para
querer o bem.
Nasceu
sobre as palhas
O
nosso menino,
Mas
a mãe sabia
Que
ele era divino. [...]
Manuel
Bandeira, Canto de Natal. Antologia Poética.
A
poeta mineira, Adélia Prado, também destacou o leito em que o Menino nasceu:
Entrai, entrai, pastorinhas
Por este portal sagrado,
Vinde ver Deus menino,
Numas
palhinhas deitado. [...]
José
e Maria foram perseguidos. Eram refugiados. Ele bateu de porta em porta a pedir
abrigo e ela prestes a dar à luz. Foram recusados. O casal foi parar num
estábulo e o Menino Deus “nasceu sobre as palhas”, sob os olhares dos animais.
Os pastores chegaram primeiro para visitá-lo.
Ele nasceu em um Belém.
Ele
não nasceu em Las Vegas.
Meme que viralizou nas redes.
Até
mesmo as cidades ditas históricas entraram na moda, os cortejos de Natal
viraram verdadeiros desfiles, ao gosto das parades, incluindo as
representações típicas norte americanas, como o Michey e Minnie.
Nas próximas edições poderão aparecer bonecos de Donald Trump e até a bandeira
de Israel...
Com
certeza, os mais prejudicados com a falsificação do Natal, com essa falta de
identidade, são os pequeninos. Há a perda do encantamento que a montagem de um
presépio causa, conforme os poemas sensíveis de Cecília Meireles, Carlos
Drummond de Andrade e Adélia Prado.
Atento às transformações, o professor, maestro e musicólogo Willer Silveira passou os últimos anos a pesquisar sobre as manifestações populares, em especial as Folias de Reis e as Pastorinhas. Após trabalho de campo, criou os arranjos para as cantigas e montou o Pastoril de Natal. A primeira apresentação ocorreu no Centro Cultural Yves Alves e a seguinte na Matriz de Santo Antônio. A Orquestra e Banda Ramalho, atuante desde 1860, brilhou ainda mais com a apresentação do Pastoril de Natal. Foi um expressivo acerto para esses tempos de atropelamentos das nossas tradições memoráveis.
Pastoril de Natal, apresentado pela Orquestra e Banda Ramalho, Centro Cultural Yves Alves. Tiradentes-MG. Fotografia: Luiz Cruz.
Dona Conceição nos seus tempos de menina foi Pastorinha, preparada por Dona Olinda Rocha, ela prestigiando o Pastoril de Natal, com sua família.
Pastoril de Natal, pela Orquestra e Banda Ramalho, Matriz de Santo Antônio. Tiradentes-MG. Fotografia: Luiz Cruz.
Pastoril de Natal, Orquestra e Banda Ramalho, Matriz de Santo Antônio. Os três solistas, a representar os três Reis Magos. Fotografia: Luiz Cruz.
O Pastoril de Natal sensibilizou e emocionou a todos, em especial as senhoras que outrora foram Pastorinhas. As apresentações transcorreram com sucesso total, valorizaram a cultura local e destacaram a importância do Patrimônio Humano do município. Uma iniciativa muito positiva para Tiradentes.
O encantamento do Presépios
Belo Horizonte oferece boas oportunidades para apreciadores
de presépios de todas as idades. Na Grande Galeria do Palácio das Artes ocorre
a exposição do acervo do Grupo Giramundo, criado em 1970. Dentre os conjuntos,
estão os bonecos do espetávulo Auto das Pastorinhas, que ao ser lançado,
ficou três meses em cartaz. Os personagens são delicados e nos sensibilizam. Essa
exposição estará aberta ao público até o dia 26 de fereiro de 2026, com visitas
gratuitas.
Também no Palácio das Artes, na Galeria Arlinda Correia Lima, está a exposição Presépios de Minas em mim, aberta até o próximo 11 de janeiro de 2026, com entrada gratuita. A curadoria dessa mostra é de Flávio Vignoli e reúne 70 presépios e estandartes de várias regiões mineiras, com três exemplares do Campo das Vertentes, de Tiradentes, São João del-Rei e Prados.
Exposição Presépios de Minas em mim – obra de Cleber Wierman, de Tiradentes-MG;obra de Juliana Julião, de Prados-MG. Fotografias: Luiz Cruz.
Exposição Presépios de Minas em mim – obra de Alice e Augusto Ribeiro – Ponto dos Volantes. Fotografia: Luiz Cruz.
Já na Casa Fiat de Cultura, além da exposição de gravuras de Rembrandt, pode-se apreciar o Presépio Colaborativo, com a curadoria do artista Leo Piló. Essa 11ª edição é dedicada à população ribeirinha, sempre esquecida. O presépio vem se consolidando como um dos mais atrativos de Minas Gerais, a atrair inúmeros visitantes. É todo construído a partir de materiais reciclados, com cuidado e delicadeza. O resultado é de telurismo e com significativa plasticidade.
Não há como deixar de registrar que temos dois concursos de
presépios, um promovido pela Fundação de Arte de Ouro Preto e outro pela
Universidade Federal de São João
del-Rei.
Em São Paulo, o Museu de Arte Sacra promoveu a Oficina de
Presépios, as peças construídas se encontram em exposição no metro, na
Estação Tiradentes. Essas iniciativas possibilitam novas linguagens e dão o
toque de contemporaneidade aos novos presépios.
Exposição dos presépios construídos na Oficina de Presépios, promovida pelo Museu de Arte Sacra de São Paulo-SP. Metro, Estação Tiradentes, SP. Fotografia: Luiz Cruz.
Natividad – Presépios da América Latina é a exposição do Museu de Arte Sacra de São Paulo em cartaz,
a reunir presépios do século XVIII ao XXI, com os mais diversos materiais e soluções,
da escultura e da pintura.
Natividad – Presépios da América Latina, exposição que reune presépios dos países latinos americanos. Museu de Arte de São Paulo-SP. Fotografias: Luiz Cruz.
Presépio Bargueño, autoria não identificada, madeira policromada e dourada, século XVIII. Bolívia. Museu de Arte de São Paulo-SP. Fotografia: Luiz Cruz.
Natividade, autoria não identificaada, óleo sobre tela, séulo XVIII. Euro-andina. Doação: Ladi Biesus. Museu de Arte de São Paulo-SP. Fotografias: Luiz Cruz.
Minas Gerais e seus presépios fabulosos pontuam um gosto, uma característica, uma identidade cultural; em outros estados brasileiros os presépios também são mantados a causar encantamento e com isso a tradição segue resistindo.
Luiz Antonio da Cruz
Agradecimentos: Instituto Cultural Biblioteca
do Ó, Maria José Boaventura, Gelcimara Costa, Gilson Costa, Edgar Fonseca de
Almeida, Nilzio Barbosa, Ricardo Ribeiro Resende, Leandro Zelortini, Maria Lídia Montenegro, Orquestra Banda Ramalho, a todos foliões e a todos que participaram e
incentivaram as Pastorinhas.


Maravilhoso! Que a tradição não se perca! Encanamentos!
ResponderExcluirMuito obrigado pela presença aqui. O tema é fabulo e contagiante. O nosso Patrimônio Cultural é muito expressivo. Abraço e que o seu Ano Novo seja de muitas bençãos.
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