TIRADENTES É CINEMA BRASILEIRO

 

 

Mais do que um evento de exibição, a Mostra de Cinema de Tiradentes é um espaço permanente de troca, escuta e construção coletiva. A cada edição, o diálogo entre diferentes narrativas, estéticas, formatos e modos de reprodução revela a pluralidade do cinema brasileiro, refletindo questões sociais, culturais, políticas e simbólicas que atravessam o país.

Raquel Hallak d’Angelo e Quintino Vargas Neto – Universo Produção 

 

No período de 23 a 31 de janeiro de 2026, nossa amada cidade é a Capital Brasileira do Cinema e abre o calendário da Programação Audiovisual do Brasil. É a 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes – com vasta programação gratuita. Apresenta uma seleção de 137 filmes brasileiros, entre longas, médias e curtas-metragens. A exibição ocorre em sessões presenciais e online, organizados em mostras temáticas, competitivas e especiais, além de seminários, fóruns, debates, exposições, shows, diversas oficinas e workshops. Há ainda a Mostrinha, com filmes para a criançada de todas as idades. Nessa edição, a Serra de São José foi mais uma vez contemplada com a Mostra Valores, montada no Largo das Forras e também no Cortejo das Artes, com a Ala Verde. Não deixe de prestigiar essa edição da Mostra.


Cartaz do primeiro filme gravado em Tiradentes, dirigido por Paulo Gil Soares, em 1967.


Tiradentes tem vocação para o cinema. Em 1967, a cidade recebeu o jovem cineasta Paulo Gil Soares, expoente do Cinema Novo e aqui gravou o seu mais famoso filme: As Proezas de Satanás na Vila do Leva e Traz e causou expressivo impacto sobre todos tiradentinos. Integrou o filme a nossa gloriosa Banda Ramalho com os seus dedicados músicos e a fabulosa Serra de São José. Movimentou a economia, transformou seus moradores em figurantes, alguns com boa participação. Era tempo de ruptura, de inovações das linguagens artísticas, mas Tiradentes ainda se encontrava isolada, esquecida, adormecida. Por isso, Paulo Gil Soares, sua equipe técnica e os atores causaram tanta mobilização local. As Proezas de Satanás na Vila do Leva e Traz já foi exibido em Tiradentes, no Centro Cultural Yves Alves, dezenas de vezes e sempre com a casa cheia.

    

As Proezas de Satanás na Vila do Leva e Traz, cenas gravadas na Igreja de Nossa Senhora do Rosário e no Santuário da Santíssima Trindade, 1967.

 

As Proezas de Satanás na Vila do Leva e Traz com a participação da gloriosa Banda Ramalho, 1967.


O filme seguinte a ser gravado em Tiradentes foi Rua Descalça, dirigido por J. B. Tanko e produzido por Herbert Richards, em 1971. Foi inspirado no romance de José Mauro de Vasconcelos. A produção também gerou impacto, a Rua Direita foi o principal cenário desse filme e mais uma vez os moradores atuaram como figurantes e personagens.

Depois vieram outros filmes, as minisséries, as novelas, os documentários, os comerciais – e nossa cidade sempre linda, com o seu casario colonial e a majestosa Serra de São José preservada, um cenário inspirador para os diversos cineastas brasileiros.


Divulgação do segundo filme gravado em Tiradentes, Rua Descalça dirigido por J. B. Tanko, 1971. (Os atores, Fernando Rosa e Ladislau). Acervo: Tânia e Ladislau.

 

Em tempos de grande sucesso do Cinema Brasileiro, com Ainda Estamos Aqui e O Agente Secreto que acabou de receber quatro indicações para o concorrido Oscar, a 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes ganha potência. A presente edição exibe a diversidade sociocultural brasileira, sua complexidade e sua exuberância. Desde a vida política, ecologia, religiosidade, alegrias e mazelas até os alertas sobre as questões climáticas. O curta Maira Porongyta – O Aviso do Céu, de Kujãesage Kaiabi trata do aquecimento global e a continuar com a devastação ambiental, seremos tostados pelo sol escaldante.

E no Largo das Forras a Mostra Valores formada por doze painéis é dedicada a Tiradentes, a tantas pessoas que lutaram por sua preservação e aos que estão na linha de frente, bravamente fazendo resistência e apontando as melhores práticas para a conservação do Meio Ambiente, da Serra de São José com sua biodiversidade, nascentes e os seus sítios arqueológicos. A Mostra Valores destacou homenagem in memoriam aos que contribuíram e deixaram legados da proteção ambiental local, a quem seremos gratos para sempre, como:  Eros Miguel Conceição, Ariadne Motta, José Trindade do Nascimento (Zé Traíra), Trindade Paiva, Natalino Resende, Yves Alves, Dalma Fernandes Ferreira, Itamar Franco, John Parsons, Anna Maria Parsons, Maria José Ramalho (Zezé), Celina Almeida Nascimento.

A Mostra Valores e o Cortejo das Artes com a Ala Verde da Serra de São José reforçam as propostas dos ambientalistas locais, reconhecem os movimentos preservacionista, dão mais visibilidades e incentivam para que Tiradentes tenha um uso mais sustentável, mas sobretudo de proteção ao seu patrimônio cultural e ambiental.

 

Pessoas em um parque

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Tiradentes é Cinema. Mostra Valores. 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes.  Largo das Forras. Fotografia: Luiz Cruz.

 

Uma imagem contendo cerca, ao ar livre, banco, de madeira

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Tiradentes é Cinema. Mostra Valores. 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes. Largo das Forras. Fotografia: Luiz Cruz.

 

Grupo de pessoas com guarda-chuvas

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29ª Mostra de Cinema de Tiradentes. Cortejo das Artes.  Ala verde da Serra de São José. Fotografia: Luiz Cruz.

 

Pessoas segurando um guarda-chuva

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29ª Mostra de Cinema de Tiradentes. Cortejo das Artes.  Ala verde da Serra de São José. Fotografia: Luiz Cruz.

 

Da primeira edição da Mostra de Cinema de Tiradentes, ocorrida em uma tenda de circo armada no Largo das Mercês à atual edição, o tempo passou e a Mostra se consolidou. As projeções ocorrem com a qualidade das melhores salas de cinema do mundo, mas para que isso aconteça, há trabalho, muito trabalho de campo coordenado pessoalmente por Quintino Vargas Neto, com sua equipe dedicada. A equipe enfrenta as intempéries, com cronograma justo e tudo precisa ficar pronto. Aliás, de todos os eventos promovidos em Tiradentes, o único que mantém uma equipe com colaboradores desde a primeira edição é a Mostra de Cinema de Tiradentes. Isso faz uma diferença enorme. Gera credibilidade. 


Ponte com trem

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 Montagem do Cine-Tenda, Largo da Rodoviária. Tiradentes. Fotografia: Luiz Cruz.

 

   


Montagem da infraestrutura da 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes. Fotografias: Luiz Cruz.

 

 Uma imagem contendo mesa, no interior, laranja, computador

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29ª Mostra de Cinema de Tiradentes. Cine-Tenda. Fotografia: Luiz Cruz.

 

Foto editada de grupo de pessoas posando para foto

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29ª Mostra de Cinema de Tiradentes. Cine-Tenda. 
Tiradentinos participando da Mostrinha. Fotografias: Luiz Cruz.

 

Auditório com pessoas sentadas

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29ª Mostra de Cinema de Tiradentes. Cine-Teatro. Fórum de Tiradentes. Tema: Regulação das Plataformas de Streaming. Fotografia: Luiz Cruz.

 

Em tempos de grande sucesso do cinema brasileiro, o nosso homenageado de hoje é Valter Ferreira. Ele é mais conhecido como Valtinho. Foi habilidoso ourives, fazer tradicional da família, mas tornou-se escultor. Dedicou-se à escultura em pedra sabão. Participou de exposições fora de Minas, ganhou prêmios e suas obras ilustraram publicações em jornais, revistas e livros. Irmão do artista Zé Damas, que fez muito sucesso ao pintar paisagens locais, realizou exposições no Brasil e no exterior. Ao contrário do irmão, Valtinho sempre foi muito discreto e produziu suas obras comedidamente.


Homem em frente a parede azul

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 Valter Ferreira – Valtinho, em 2002, exposição Tiradentes e os Tiradentinos. Foto: Luiz Cruz. 

 

Valtinho é nosso homenageado dessa semana, porque ele sempre gostou de Cinema, trabalhou no Cinema do Zé da Olinda que funcionou na Sede do Aymorés Futebol Clube, na Rua Direita. Era auxiliar de projeção e participou ainda das exibições ocorridas no antigo Porto Real, atual Santa Cruz de Minas. Habilidoso, preparava os painéis de propaganda dos filmes a serem exibidos. Colava os cartazes e fazia os letreiros, um painel que ficava em frente à Sede do Aymorés e o outro na esquina da Rua Direita com a Rua Padre Toledo. Conta-nos como funcionava o Cinema do Zé da Olinda, o salão ficava vazio, cada um tinha que levar o seu banco ou cadeira. E o povo ia ao Cinema, prestigiava com prazer. Com largo sorriso, diz que o melhor desse trabalho foi a oportunidade de assistir aos filmes do Cinema Brasileiro.


Valter Ferreira – Valtinho, em 2025. Fotografia: Luiz Cruz.

 

Esculturas em pedra sabão, de Valtinho. Acervo: Valter Ferreira. Fotografia: Luiz Cruz.

 

Valtinho é dono de uma memória incrível, lembra-se de tudo com detalhes preciosos. Conheceu tudo e todos de Tiradentes, as redes familiares, os casos – do cotidiano e os quase secretos. Gosta de conversar e rememorar sobre a Tiradentes de outrora.

Valtinho aposentou e passou a se dedicar ao jardim de sua casa, no bairro Pacu, bem em frente da pracinha. Na verdade, ele tem uma pequena reserva ambiental e cuida de cada detalhe, como se fosse um santuário ambiental. A passarinhada o visita sempre e é uma área excelente para a observação de aves. As árvores são frondosas, há trilhas dos bichos silvestres, água e ponto de descanso. É realmente um pequeno santuário.


Jardim da casa de Valtinho, bairro Pacu, Tiradentes. Fotografia: Luiz Cruz.


Uma imagem contendo ao ar livre, homem, árvore, menino

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Valtinho em seu jardim, bairro Pacu, Tiradentes. Fotografia: Luiz Cruz.

 

Conforme apresenta, o jardim é uma obra em progresso, está em percurso... Sempre acrescenta um fragmento esculpido e uma planta nova. Todo orgulhoso, mostra o Relógio do Sol, réplica que encomendou ao saudoso escultor “Bolão”. O jardim do Valtinho poderia ser visitado e até usado como  espaço para a Educação Ambiental, para que os jovens tenham oportunidade do contato com a Natureza tão bem cuidada por esse cidadão.


Animal réptil em cima de grama

O conteúdo gerado por IA pode estar incorreto.     Desenho de uma árvore

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Valtinho e seu relógio do sol, escultura do saudoso "Bolão". Fotografias: Luiz Cruz.

 

Valtinho com suas vivências e memórias do Cinema do Zé da Olinda, das oficinas de ourives, dos bailes do Aymorés, das esculturas em pedra sabão e dos gloriosos tempos da nossa Tiradentes – que era pacata e ao mesmo tempo borbulhante, sua história de vida é rica, é uma História a nos contemplar e a enriquecer o nosso Patrimônio Humano.

Prepare-se, agende-se. Nessa semana, na próxima sexta-feira, dia 30 de janeiro, às 19h30, no Cine Petrobrás Praça – no Largo das Forras, será exibido o documentário Tiradentes: joia do barroco mineiro, dirigido por Otávio di Toledo e produção de Michilene Rodrigues. Será um encontro com a história contemporânea de Tiradentes, um diálogo do presente com o passado e seus personagens. Imperdível.


Rio com pedras na beira da água

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Serra de São José. Making of do documentário Tiradentes: Joia do Barroco Mineiro. Foto: Luiz Cruz.

 

Homem na floresta

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Trilha do Mangue. Making of do documentário Tiradentes: Joia do Barroco Mineiro. Foto: Luiz Cruz.

 

Cinema brasileiro é arte, cultura, política, militância, resistência e sobretudo o espelho da alma do povo brasileiro.

Luiz Antonio da Cruz

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