A Cidade do Alferes Tiradentes

e sua Proteção

 

 

S. José D’El-Rey, 2 horas da tarde. Céo coberto de nuvens de chumbo. Estamos no coração da velha cidade colonial, em que por tantos anos viveu Tiradentes. Praça imensa, chão atapetado de capim bravo. (...)

Que silêncio, que tristeza, que morte! S. José d’El-Rei chama-se hoje – Tiradentes. Quizeram com essa mudança de nome perpetuar a memória do grande Inconfidente, fechando-a numa sorte de santuário imenso, em que ninguém possa entrar sem um grande respeito e uma comoção invencível.

Olavo Bilac, Chronicas e Novellas, 1893-1894, p. 77-81.

 

 

Em 1992, quando comemoramos o Bicentenário da Morte do Alferes Tiradentes, publicamos o Jornal do Bicentenário do Martírio de Tiradentes. Dentre os textos editados, um deles foi o de Ângelo Oswaldo de Araújo Santos, sócio fundador da SAT – Sociedade Amigos de Tiradentes, Secretário de Estado de Cultura e atual Prefeito de Ouro Preto – a antiga Vila Rica:

 

A Cidade do Alferes

 

A mais sentida homenagem que já se tributou ao Alferes Joaquim José da Silva Xavier, entre tantos monumentos e títulos que lhe têm sido atribuídos, ainda é a que nasceu da emoção de Silva Jardim, na aurora da República. Graças ao seu apelo, o terceiro ato assinado pelo primeiro governador republicano de Minas, Cesário Alvim, em 6 de dezembro de 1889, transformou a lendária Vila de São José del-Rei em Cidade de Tiradentes.

Dois séculos depois de seu martírio, em meio às lições de liberdade e cidadania legadas pelo precursor da Independência, o grande tributo que continuamos a lhe dever será, certamente o da preservação e valorização da cidade que ostenta o nome do Tiradentes. Aos pés da Serra de São José, estende-se o santuário cívico em que arte e história guardam a consciência do Brasil.

Conservar Tiradentes não é manter a cidade em redoma que lhe inviabilize o desenvolvimento. Assim como cultuar o Tiradentes não é perder-se numa retórica alheia aos conflitos da realidade brasileira. Salvaguardar sua cidade significa apenas respeito aos bens culturais e naturais que a particularizam no elenco de centros urbanos do País.

A ganância e a esperteza de alguns poucos, não podem prevalecer sobre o compromisso nacional de um patrimônio que, pertencendo a cada morador da cidade, é igualmente uma parte da alma de todos os brasileiros. Um programa efetivo, nesse sentido, é a homenagem que cabe às gerações deste bicentenário.

Celebramos, aqui, a presença viva do Tiradentes. Joaquim José da Silva Xavier projeta sua herança em cada trecho da cidade que nos cumpre amar e proteger. O bicentenário do sacrifício do patrono cívico da Nação é um convite à união de todos também em favor da Cidade de Tiradentes. Ela é a força espiritual de Minas e do Brasil à espera de nossa consciência.

 

Jornal do Bicentenário do Martírio de Tiradentes, Tiradentes-MG,

21 de Abril de 1992 – Edição Comemorativa, p. 1.

(grifos nossos).

  

 

Igreja de São Francisco de Paula e a Serra de São José.Tiradentes-MG. Fotografia: Luiz Cruz.


Coluna Saldanha Marinho, século XIX. Praça Tiradentes, Ouro Preto-MG. Primeiro monumento em homenagem ao Alferes Silva Xavier. Fotografia: Arquivo Público Mineiro.

 


Coluna Saldanha Marinho. Atualmente na Praça da Estação, Ouro Preto-MG. Fotografia: Luiz Cruz. 


Segundo monumento a homenagear ao Alferes Silva Xavier. Praça Tiradentes, Ouro Preto-MG. Fotografia: Luiz Cruz.



Terceiro monumento a homenagear o Alferes Silva Xavier. Largo das Forras, Tiradentes-MG. Fotografia: Luiz Cruz.

 

Mais de três décadas se passaram após a publicação do texto de Ângelo Oswaldo de Araújo Santos e a cidade de Tiradentes corre cada vez mais o risco de descaracterização do seu patrimônio arquitetônico, urbano e ambiental, embora conte com o instrumento Tombamento Federal de seu Conjunto Arquitetônico e Urbanístico desde 1938. Tiradentes é ainda o que podemos chamar de “cidade presépio”, com o núcleo urbano diminuto, tal qual fora no século XVIII, com meia dúzia de ruas, meia dúzia de becos, meia de largos e a esplêndida Serra de São José. Tudo encantador e correndo grave risco de desfiguração.

Um dos maiores pensadores do patrimônio cultural de Minas Gerais, o arquiteto, professor e chefe do 3º Distrito do Iphan, Sylvio de Vasconcelos (1916-1979) registrou:

 

Tiradentes

 

    De um lado, a serra enorme. Tão negra que chega a rebrilhar ao sol. No entanto, seu corpo é feito de quartzito mais branco que as Minas têm. À beira dessa serra, cujas sombras o crepúsculo prolonga, ergue-se, sozinha, a Vila de S. José del Rei.

 

Há uma calma profunda no ambiente. Parece ainda estarrecido com o martírio de seu filho mais querido, o Tiradentes. Aqui, ainda menino, ele brincou, em corridas pelas campinas, a fora. Pescou lambaris no riacho, colheu flores, armou arapucas, aprendendo a amar o chão e as coisas de sua terra. Viu o ouro ingrato, das mãos feridas dos mineiros, fugindo além-mar. (...). Hoje a cidade eterniza seu apelido, à sombra da mesma serra enorme, tão negra que chega a rebrilhar ao sol.

 

O conjunto urbano figura cenário, a propósito construído para encantar. É concentrado e diminuto como um trecho escolhido da história. Não estende em linha como as demais povoações mineiras, enrodilha-se. É quase uma rua só, formando um quadrado. Em cada um de seus lados uma perspectiva diferente. A um canto, levanta-se nobre sobrado de camarinhas; prolonga-o larga série de casas térreas, bem postas em suas discretas fisionomias.

 

Renée Lefèvre, Sylvio de Vasconcellos,

Minas: cidades barrocas, p. 9, 1979. 

 

A antiga Vila de São José deixou encantados os viajantes estrangeiros e brasileiros que por aqui passaram – do Reverendo Robert Walsh, a Olavo Bilac, Carlos Laet, os Modernistas da Expedição de 1924, as poetas Cecília Meireles e Elizabeth Bishop e tantos outros.

Desse encantamento tão aflorado e devidamente registrado à expressiva preocupação de um registro feito em dezembro de 2025:

  

Em Tiradentes

  

Estive ontem em Tiradentes para dar uma arejada e dar uma olhada na cidade; na Matriz e na maravilhosa Serra de São José, que ainda está totalmente preservada. Dá gosto de se ver totalmente preservada.

O Turismo realmente transformou a pacata cidade de 30 anos atrás numa mistura de Paraty com Búzios. Um Shopping histórico a céu aberto. Para a indústria do turismo é realmente um caso de sucesso. Para a Paisagem, os problemas de sempre já aparecem, favelização das encostas, construções inadequadas e por aí vai sem a Prefeitura se importar muito com isso, como sempre.

 

André Guilherme Dornelles Dangelo,

arquiteto, engenheiro e professor da Escola de Arquitetura e Urbanismo,

da UFMG, publicado em suas redes sociais.

 

 

Conforme observado pelo Professor Dr. André Dangelo, o Turismo realmente transformou a realidade de Tiradentes – há aspectos positivos e proporcionalmente há aspectos negativos. Como na grande maioria as cidades brasileiras, não ocorre preocupação com o crescimento urbanístico, apesar de contar com o instrumento tombamento federal e o seu Plano Diretor Participativo. Tudo transcorre à revelia. Quando o Poder Executivo se lembra que existe tal Plano, é para alterar a área urbana e atender interesses privados e escusos. Essas alterações passam pela Câmara Municipal de Tiradentes, que analisa e aprova tais alterações. Consequentemente, com isso vem a subtração de vegetação, movimentação de terra, aterro de nascentes e córregos, eliminação da fauna, desfiguração da Paisagem e o surgimento de edificações estranhas à cultura local.

É preocupante a pressão da especulação imobiliária. Tiradentes acabou cercada por esses investimentos, que não contemplam os tiradentinos. Aliás, com o galopante processo de gentrificação, os moradores acabaram ficando além dos condomínios. E tantos já tiveram que se mudar para as cidades do entorno.

Com a grande infraestrutura para o Turismo, centenas de pousadas, centenas de casas de aluguel para temporada, restaurantes e bares, tudo precisa funcionar e gerar rendar. É compreensível.

Mas os principais empreendimentos turísticos locais são agressivos. Os proprietários ficaram milionários. Porém, parece que iniciaram suas atividades comerciais ontem à tarde, porque avançam, destroem, ignoram a legislação e mais ainda os órgãos de proteção. Preferem assim. Depois, cumprem um TAC– Termo de Ajustamento de Conduta absolutamente ridículo e tudo fica legalizado. E seguem, poderão ficar bi e até trilionários, mas uma coisa é certa, jamais conseguirão eliminar a pobreza cultural, isso está lá no DNA de cada um deles. A ganância e como ocupam os espaços nos revelam o que carregam consigo.

Administrar cidade com o potencial cultural e ambiental como Tiradentes não pode ser um mistério. Sua vocação natural é o Turismo – sua principal e única fonte de renda, isso está definido.

– Então, por que maltratam tanto essa cidade?

Recentemente, priorizam os eventos de massa para Tiradentes e tudo passa a operar na capacidade máxima, o que acaba por colocar o seu Conjunto Arquitetônico e Urbanístico tombado em grave risco de sinistro. Cidade tão peculiar, com tanta história e memória, com tantos artesãos refinados, com diversos artistas produzindo, com a magnífica Serra de São José – optar pelo turismo de massa barulhento, desrespeitoso, que só está interessado em produzir conteúdo instantâneos para as redes sociais, é triste.

A poluição visual se alastrou por todos os cantos, mesmo a contar com o Decreto-Lei 25, de 30 de novembro de 1937, além da Lei de Programação Visual. A poluição sonora impacta, principalmente com os grandes shows – as vezes ficar em casa em Tiradentes pode ser torturante, não adiante nos trancar, o alto volume do som invade tudo. A mobilidade acaba comprometida e causa estresse. As festas com sons a invadir as madrugadas mereciam atenção... Até a Paróquia de Santo Antônio entrou no clima do Faroeste Barrococó Tiradentino e carnavalizou as indumentárias das imagens de vestir do século XVIII.

 

Monumento da Independência, aspecto. Parque da Independência. São Paulo. Fotografia: Luiz Cruz.


            

Monumento da Independência, aspecto. Parque da Independência. São Paulo. Fotografia: Luiz Cruz.

 

A Vila de São José vivenciou muitas histórias e muitas memórias. O menino Joaquim José da Silva Xavier por aqui “brincou, em corridas pelas campinas, a fora. Pescou lambaris no riacho, colheu flores, armou arapucas, aprendendo a amar o chão e as coisas de sua terra”, conforme registrado por Vasconcellos. Daqui saiu para percorrer muitos caminhos e conhecer bem a Colônia Brasileira. Sonhou, conspirou, liderou. Vislumbrou uma República. Ao longo dos séculos sua memória vem sendo reverenciada, em monumentos, a nomear logradouros e edificações. A imagem do Alferes Tiradentes pode ser apreciada em diversos monumentos, praticamente em todos os Estados brasileiros. Em São Paulo, no Parque da Independência, lá está ele. Altivo, destemido e a confirmar o seu espírito de liderança, como numa de suas célebres freses: “Se mil vidas eu tivesse, mil vidas eu daria”, pela independência do Brasil.

Preservar o torrão natal do Alferes Joaquim José da Silva Xavier é “Salvaguardar sua cidade significa apenas respeito aos bens culturais e naturais que a particularizam no elenco de centros urbanos do País”, conforme apontado pelo Prefeito de Ouro Preto, Ângelo Oswaldo.

No “silêncio profundo’, observado pelo poeta Olavo Bilac, à “favelização” constatada pelo arquiteto André Dangelo, que nesse 21 de abril de 2026, quando rememoramos a morte do líder inconfidente – o Alferes Silva Xavier, que possamos refletir sobre os rumos que nossa amada Cidade de Tiradentes percorre no momento. E pode ser uma trilha sem retorno... Há que ter esperança, para que possamos conviver melhor com o Turismo, que a cidadania plena seja praticada – que a sustentabilidade tenha as lâmpadas acendidas (apesar do desgaste amplo e geral da expressão sustentável). Basta de obscuridade, oportunismo, ganância, esculhambação – em detrimento da preservação do nosso Patrimônio Ambiental, Cultural e Humano.

 

Luiz Antonio da Cruz


Referências:

BILAC, Olavo. Chronicas e Novellas. Rio de Janeiro: Cunha e Irmãos, 1894.

CRUZ, Luiz Antonio da. Tiradentes e o Alferes Tiradentes. Tiradentes: Mandala Produção, 2022.  

LEFÈVRE, Renée. VASCONCELLOS, Sylvio de. Minas: cidades barrocas. São Paulo: Cia. Editora Nacional, 1979.

SANTOS, Ângelo Oswaldo de Araújo. Jornal do Bicentenário do Martírio de Tiradentes, Tiradentes-MG, 21 de Abril de 1992 – Edição Comemorativa.

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