Tiradentes: calçamento e encantamentos

 

No meio do caminho tinha uma pedra

tinha uma pedra no meio do caminho

tinha uma pedra

no meio do caminho tinha uma pedra.

 

Nunca me esquecerei desse acontecimento

na vida de minhas retinas tão fatigadas.

Nunca me esquecerei que no meio do caminho

tinha uma pedra

tinha uma pedra no meio do caminho

no meio do caminho tinha uma pedra.

 

Carlos Drummond de Andrade, No meio do Caminho.

 

 

Calçamento da Rua da Câmara. Tiradentes. Fotografia: Luiz Cruz.

 

Tratamos do calçamento da cidade no livro “Recortes de Memória” e também em trabalho apresentado no V Seminário Ibero-americano Arquitetura e Documentação, realizado em Belo Horizonte-MG, em 2017, sob o título: “O calçamento de Tiradentes: história, intervenções e desafios para a conservação”, referência para interessados nesse assunto.

Ocorreu mais uma edição da Fliti – Feira Literária Internacional de Tiradentes, no período de 6 a 10 de maio. A programação foi extensa, com dezenas de convidados do Brasil afora. Nos stands, grandes distribuidoras de livros, editoras e pequenas editoras. Valeu de tudo para capturar a atenção dos alunos de diversas escolas da região que visitaram o evento, cada aluno e cada professor ganhou um vaucher para adquirir livros. Acabou numa disputa muito desigual e as pequenas editoras ficaram chupando dedo, mas com as mais belas e as melhores edições observadas na Fliti.

Só visitamos o evento na quinta-feira, à tarde. Saímos para visitar o stand da única editora instalada na cidade, a Francesinha, que edita obras com exímia qualidade. Não deu para ficar por muito tempo, pois havia muita agitação. Não tinha como parar, assentar e apreciar. Parecia que tudo fora montado para turista de passagem.


Entrada das instalações da Fliti, 6ª edição. Tiradentes. Fotografia: Luiz Cruz. 

 

Ficamos perplexos com as instalações. Quem elaborou, analisou e aprovou aquela infraestrutura que não contemplou a acessibilidade? Como assim? Um vento de magnitude sem oferecer comunicação acessível? Ficamos constrangidos ao constatar o esforço para se circular no evento com um aluno cadeirante. Até registramos, mas nem podemos tornar a fotografia pública por questões de bom senso.

Os promotores da Fliti precisam fazer um curso com os profissionais da Universo Produção – que realizam a Mostra de Cinema de Tiradentes, eles cuidam dos detalhes, trabalham incansavelmente para oferecer o melhor em termos de projeção – como ocorre nas melhores salas de cinema do mundo, mas também se preocupam com a acessibilidade e tantos outros detalhes. Isso faz diferença.

 

Entrada da tenda da Mostra de Cinema de Tiradentes, com acessibilidade. Tiradentes. Foto: Luiz Cruz.


A vovó e as netinhas na tenda da Mostra de Cinema de Tiradentes, com acessibilidade e cuidado. Tiradentes. Fotografia: Luiz Cruz.

 

Ontem, quinta-feira, 14 de maio de 2026, saímos pela manhã para uma caminhada e apreciar a imagem do Pai Eterno, no Santuário da Santíssima Trindade. É uma belíssima escultura. Ao chegar no início da Rua da Santíssima vimos que estavam reparando pequeno trecho do calçamento. Paramos, fotografamos, como sempre.

Aqui, do calçamento original, muito pouco sobrou. O atual foi construído a partir de 1959, com as pedras da Serra de São José. Infelizmente, ocorreram muitas intervenções no calçamento, da Cemig, Telemig e Copasa. A cada abertura, o fechamento acabou inadequado.

 

Rua do Chafariz, calçamento original, década de 1940. Tiradentes. Fotografia: Acervo do Iphan.

 

Equipe da Prefeitura de Tiradentes construindo o calçamento, com as pedras da Serra de São José, década de 1970. Fotografia: Arquivo Luiz Cruz. 

 

O calçamento foi restaurado. Obra realizada com projeto sem pé e sem cabeça. Tiraram as pedras originais e ao serem recolocadas, apareceram outras pedras, alvíssimas, “virgens”. Não podia dar certo. Não deu certo!

 

Obra de restauração do calçamento de Tiradentes. Rua Direita. Fotografia: Luiz Cruz.

 

Obra de restauração do calçamento de Tiradentes. Rua da Câmara. Fotografia: Luiz Cruz.

 

Esse calçamento é de um núcleo urbano e arquitetônico do século XVIII, protegido com o instrumento tombamento, pelo Iphan, desde 1938; portanto, precisa e deve ser preservado. Porém, fatores diversos comprometem sua conservação, principalmente o trânsito de caminhões pesados.

 

Intervenção no calçamento, registrada na manhã de 14 de maio de 2026. Rua da Santíssima Trindade. Tiradentes. Fotografia: Luiz Cruz.

 

Além disso, falta manutenção, que aqui no Brasil não dá visibilidade, não dá voto. Falta vontade política para enfrentar o problema. Por isso, a situação de conservação do calçamento de Tiradentes é precária.

Após minha visita à imagem do Pai Eterno, ao chegar em casa, recebi dezenas de mensagens a comentar a crônica de Cora Rónai, de “O Globo”, sob o título: “Tiradentes, com ressalvas”, que comenta sobre a Fliti e a cidade. Aborda também sobre o calçamento de pedras. Ela terminou o texto assim:

 

Eu honestamente não sei se a preservação histórica justifica a essa hostilidade com quem já não anda com facilidade. O recado que as ruas de Tiradentes transmitem aos mais velhos aos que têm dificuldades de locomoção é claro: não venham.

Cora Rónai, O Globo, Segundo Caderno, quinta-feira, 14 de maio de 2026.


 

Parcialmente, concordamos com a cronista. A acessibilidade em núcleos urbanos antigos é um desafio. É um tema complexo, principalmente para o Brasil que não prima por tratar condignamente as questões do urbanismo.

Especificamente, no caso de Tiradentes, conforme os registros da intervenção de restauração do calçamento, a obra foi um desastre, portanto o resultado foi catastrófico!

Para a manutenção cotidiana, antes mesmo, é preciso de profissionais, com capacidade técnica e amadurecimento intelectual. Depois, a fiscalização – antes, durante e depois. E isso tem nos faltado, o melhor exemplo é a intervenção que registramos em pleno Largo das Forras, no mesmo dia 14 de maio, com o corte das pedras. Intervenção executada por alguém que deve ter apenas um neurônio; caso tivesse dois, ainda haveria esperança para que algo de positivo pudesse acontecer.

 

Intervenção inadequada no piso do Largo das Forras, registrada no dia 14 de maio de 2026. Tiradentes. Foto: Luiz Cruz.

 

O calçamento de Tiradentes não é original, mas é perfeitamente compatível com o urbanismo e a arquitetura setecentista. Mesmo não sendo original, é lindo. Raras são as localidades mineiras que mantêm trechos originais do calçamento, a exemplo do Serro, Sabará e Mariana – a primaz de Minas. Então, preservar é preciso!

Tiradentes recebe visitantes de todas as regiões do Brasil e de vários países. Boa parte desses visitantes são idosos, aposentados, os da chamada “terceira idade”; com vagar e calma, circulam, apreciam, fotografam e se encantam com a nossa amada terrinha.


Passagem da Procissão de Ramos e o calçamento de pedra. Tiradentes. Fotografia: Luiz Cruz.

 

Então, discordamos do fecho da crônica de Cora Rónai e a convidamos para nova visita a Tiradentes, com calma, com vagar. Caso tenha dificuldade em caminhar pelo calçamento, chame uma charrete ou um taxi. Pare, respire, olhe essas ruas, as casas brancas, os telhados em movimento, as igrejas, o chafariz, os museus fabulosos, o céu sempre esplêndido, estenda seu olhar para essa paisagem única, onde a arquitetura, o urbanismo e a Serra de São José compõem cenário de beleza e de magnitude. Com mais calma ainda, troque um dedo de prosa com um tiradentino... É tão bom quando temos oportunidade de se tornar humanas essas aventuras.

Para quem tem dificuldade de caminhar, vá com calma. Mas com atenção. Aproveite, aprecie a textura, a cor, o formato, a ondulação de cada pedra do calçamento de Tiradentes. Cada pedra tem uma história acumulada há milhões de anos, camada por camada sedimentar. Dá até para imaginar o primeiro grãozinho de areia... Cada pedra é testemunha de que aqui, a nossa terrinha amada, um dia foi mar. Cada pedra do calçamento de Tiradentes é um “documento arqueológico”.

Drummond viu a pedra e fez o poema “No meio do caminho”. O poeta Júlio Castañon Guimarães percorreu as ruas de Tiradentes e também fez um poema, num dos versos a “interrogar as pedras”. Aqui, na antiga Vila de São José é assim, puro encantamento. E que nunca nos falte a poesia.

Então, venha se encantar com nossa terrinha e não deixe de apreciar a beleza e a poesia que Tiradentes pode propiciar!

 

Luiz Antonio da Cruz

 

Referência:

ANDRADE, Carlos Drummond de. Alguma Poesia. Bello Horizonte: Edições Pindorama, 1930.

CRUZ, Luiz Antonio da. O calçamento de Tiradentes: história, intervenções e desafios para a conservação. V Seminário Ibero-americano Arquitetura e Documentação. Belo Horizonte, outubro, 2017.

CRUZ, Luiz Antonio da. Recortes de Memória. Tiradentes: IHGT, 2015.

Guimarães, Júlio Castanõn. Matéria e Paisagem. Rio de Janeiro: Sette Letras, 1998.

 

 

Comentários

  1. Belíssima e muito didatíca a explanação sobre o calçamento de Tiradentes. Aqui em Paraty o calçamento também sofreu muitas intervenções desatrosas como a do cabeamento elétrico subterrâneo, a fiação dos telefones e uma tentativa de saneamento básico (década de 1970). A reirada das padras originais por outras mais escorregadias, a não presrvação do meio fio original e a inclinação das ruas para o centro, para o mar e rios que deaiam a cidade. Infelizmente nunc via um trabalho para recuperar o calçamento original. Agora até as pedras das calçadas são retiradas e con elas se constroem canteiros que descarecterizam a calçadas, com a anuência e o silêncio dos órgãos que deviam cuidar preservá-las. Tudo isto é muito triste.

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