O Cinema abraça a histórica Tiradentes
A
lua foi ao cinema
passava
um filme engraçado,
a
história de uma estrela
que
não tinha namorado.
Não
tinha porque era apenas
uma
estrela bem pequena,
dessas
que, quando apagam,
ninguém
vai dizer, que pena!
Era
uma estrela sozinha,
ninguém
olhava pra ela,
e
toda luz que tinha
cabia
numa janela.
A
lua ficou tão triste
com
aquela história de amor,
que
até hoje a lua insiste:
— Amanheça, por favor!
Paulo Lemiski, A lua no cinema, 1991.
Material de divulgação do filme Rua Descalça, 1971, gravado em Tiradentes. Acervo: Ladislau e Tânia. Arquivo: Luiz Cruz.
Era 1967 quando o saudoso cineasta Paulo Gil Soares (1935/Bahia- 2000/Rio de Janeiro) aportou em Tiradentes. A antiga Vila de São José ainda adormecia, enrodilhada ao sopé da Serra de São José. Ele chegou e tudo mudou. Realmente, ocorreu aqui a máxima que se tornou conhecida daquele período, a frase famosa do cineasta Glauber Rocha: “uma câmera na mão e uma ideia na cabaça”, dita naquela década de 1960, na efervescência do Cinema Novo, produzido com a cara do Brasil, com suas peculiaridades – a narrativa, a luz e a sombra, o som, o enquadramento, a paisagem e a nossa gente.
Nada mais impactou tanto a cidade quanto aqueles meses em que Paulo Gil Soares e sua equipe estiveram aqui gravando o clássico As Proezas de Satanás na Vila do Leva e Traz. Ninguém entendia nada. Mas a população encarou tudo com muito empenho e participou do filme. Um bode preto no altar-mor da Igreja do Rosário e depois na procissão. Não havia sentido. Não havia nenhuma sequência, mas o povo estava lá. A nossa gloriosa Banda Ramalho, atuante desde 1860, abrilhantou e a música deu mais vida aquelas cenas incompreensíveis. Depois, veio a trilha sonora, a voz aveludada de Caetano Veloso que se consolidou como um dos ícones da resistência daquela época...
Sem dúvida, As Proezas de Satanás na Vila do Leva e Traz é o filme mais foi exibido em Tiradentes e sempre com público expressivo. Agora com a Mostra Tiradentes Abraça a Cidade, evento da 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes, que se prepara para a 30ª edição, teremos uma programação especial e será exibido o filme Rua Descalça, gravado em Tiradentes em 1971, dirigido por J.B. Tanko. Imperdível! Vamos encontrar, ainda, uma cidade totalmente preservada, exatamente como fora estruturada no século XVIII. Melhor ainda, com todos os seus moradores, os idosos, os adultos e as crianças – um universo humano cheio de raízes, muitas histórias e muitas memórias.
Material de divulgação do filme Rua Descalça, 1971, gravado em Tiradentes.Os dois meninos da direita são: Ladislau e Fernando Rosa. Acervo: Ladislau e Tânia. Arquivo: Luiz Cruz.
Material de divulgação do filme Rua Descalça, 1971, gravado em Tiradentes. Acervo: Ladislau e Tânia. Arquivo: Luiz Cruz.
Material de
divulgação do filme Rua Descalça, 1971, gravado em Tiradentes. Interior da
casa da Rua Direita, onde hoje funciona o Museu Martir. Acervo:
Ladislau e Tânia. Arquivo: Luiz Cruz.
Rua
Descalça é a nossa Rua Direita – sem dúvida a mais bonita do
Brasil. A casa que abrigou os personagens do filme tem atualmente o número 44.
Naquela época moravam lá o casal: Francisco Costa, popularmente chamado de Chico
Psicoleta e Dona Nair Maria Lara, com a filha Sebastiana Costa (Fiinha), e seus
e netos Ladislau e Didi. A edificação geminada era toda original, construída
com as técnicas vernaculares. Mas chegou na década de 1980 em precárias
condições de conservações. Foi através do Projeto Obras Emergenciais da SAT –
Sociedade Amigos de Tiradentes que recebeu intervenções estruturais.
Posteriormente, foi adquirida pela Professora Dra. Maria Coleta de Oliveira,
que a restaurou e montou com muitas obras dos artistas locais e regionais, com
peças do Jango, Lilia Fonseca, Zé Damas e outros. Atualmente a casa abriga o
Museu de Arte de Tiradentes – Martir, com uma bela coleção de obras de artistas mineiros contemporâneos e pode ser visitado.
Carnet de Contribuições – Projeto Obras Emergenciais de Tiradentes. Obra da casa da Rua Direita 44. Acervo: Ladislau e Tânia. Arquivo: Luiz Cruz.
Casa da Rua Direita, cenário do filme Rua Descalça, restaurada pela ProfessoraDra. Maria Coleta de Oliveira. Interior, com obras de Jango, Lilia Fonseca e artesãos de Prados. Tiradentes. Foto: Luiz Cruz.
Casa da Rua Direita, cenário do filme Rua Descalça, agora sede do Museu Martir. Tiradentes. Fotografia: Luiz Cruz.
Há 29 anos, no Largo das Mercês, sob uma tenda circense, aconteceu a primeira edição da Mostra de Cinema de Tiradentes, promovida pela Universo Produção. A cidade já estava revitalizada, mas a mostra chegou para movimentar, inovar e oferecer muitas oportunidades – tudo gratuitamente. Novamente, lembrávamos da máxima do Glauber Rocha, “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”. No próximo ano celebraremos a 30ª edição e ao longo dessas três décadas, acompanhamos a desenvolvimento do Cinema Brasileiro. Tiradentes se tornou palco não somente de exibição, mas do pensar o cinema, construir o cinema, planejar o cinema, distribuir o cinema, utilizá-lo como instrumento de veiculação da cultura, da identidade, da arte, da poesia e do pertencimento – num sentido amplo – a espelhar o cotidiano da sociedade brasileira e sua diversidade. E, ainda, ao longo desses anos, assistimos o Cinema Brasileiro abarcar tantos prêmios no exterior, foi o reconhecimento internacional de nossa produção cinematográfica.
Divulgação. Universo Produção.
Para nos prepararmos para o próximo ano, a Universo Produção elaborou uma programação especial, com cinema, memória, formação e encontro com a comunidade tiradentina. É para acompanhar tudo. É oportunidade para assistir o clássico Rua Descalça, de 1971 e os filmes produzidos recentemente. A programação será encerrada com a exibição do documentário Milton Bituca Nascimento – para nos encantar e emocionar. Bituca esteve em Tiradentes algumas vezes gravano clips globais e realizou um grande show no Largo da Santíssima Trindade, com o Grupo Ponto de Partida, quando ocorreu a inauguração do projeto Estrada Real.
O
cinema envolve a histórica Tiradentes, contempla Tiradentes, com muita história, muitas camadas de memórias e até
a poesia. Agende, prepare-se para acompanhar a programação especial e
gratuita da Mostra Tiradentes Abraça a Cidade.
. De 12 a 14 de agosto – quarta a
sexta-feira:
- Oficina de Processos Audiovisuais
Cocriativos – Projeto Mulheres Criativas.
- Sessões Cine-Expressão – A Escola vai
ao Cinema.
. Dia 12 de agosto – quarta-feira, às
19h30, no Centro Cultural Yves Alves:
- Abertura oficial e exibição de curtas
da produção local:
.
Um talvez em Tiradentes, de Amaury Bassi. Ficção, digital, cor, 17 min,
MG, 2021.
.
Ceramistas do Elvas, de Elizabeth Ramos e Vitória Iabrudi. Documentário,
digital, cor, 10 min, MG, 2023.
.
Desatino Barroco, de Aissa Zaar e ILO. Ficção, cor, 30 min, MG/RJ, 2024.
.
Dois tons de Preta, de Elizabeth Ramos e Vitória Iabrudi. Documentário,
cor e PB, 21 min., 2025.
.
Dia 13 de agosto – quinta-feira, às 19h30, no Centro Cultural Yves Alves:
. Rua
Descalça. Direção de J.B. Tanko, ficção, cor, 104 min, RJ, 1971 (gravado em
Tiradentes).
.
Dia 14 de agosto – sexta-feira, no Centro Cultural Yves Alves:
. às 19h – sessão dedicada aos
resultados das ações formativas da Mostra.
. às 20h – Milton Bituca Nascimento.
Documentário, cor, 110 min, SP, 2025.
Luiz Antonio da Cruz
Referências:Direção: Flavia Moraes
Um documentário emocionante sobre a trajetória de Milton Nascimento, símbr https://luizcruztiradentes.blogspot.com/2023/06/sat-sociedade-amigos-de-tiradentes-uma.html
LEMINSKI, Paulo. Distraídos venceremos. 4ª ed. São Paulo: Brasiliense, 1991.

Comentários
Postar um comentário