São Benedito – O santo da cozinha

 

Dedicado ao nosso amigo

Dr. Walquir Avelar,

fervoroso devoto de São Benedito

 

 

Aué como está tão belo

O nosso Ticumbi!

Vai puxando pró seu rendimento

Que São Binidito

É filho de Zambí


Ponto de Congado. Monique Augras, Todos os Santos São Bem-vindos

 

 

 São Benedito, Igreja de São Benedito, Andrelândia-MG. Fotografia: Luiz Cruz. 

 

É conhecido como São Benedito – o Negro, também como o Mouro, o Africano, o de Palermo, o das Flores. Nasceu na Sicília, a 31 de março de 1524 e faleceu em Palermo, em 4 abril de 1589. Foi um homem simples, descendente de escravizados da Etiópia, que na infância obteve a liberdade. Muito cedo dedicou sua vida à religiosidade. Aos 18 anos, tornou-se um franciscano e passou a viver em um mosteiro, onde cuidava da horta e da cozinha.  

Foi apenas um irmão leigo, mas com suas virtudes comandou o mosteiro e o reformou, com grande sucesso. Depois, pediu para retornar às suas funções na cozinha. Por diversas vezes teve colóquios com o Menino Deus. Passou a ser o padroeiro dos negros, dos cozinheiros, das Missões Católicas na África e é o protetor da despensa – para que nunca falte alimento.

O culto a São Benedito foi difundido em Portugal e chegou Brasil, introduzido pelos jesuítas a partir de 1552, ao propagar a devoção entre os escravizados oriundos da Guiné. Assim, conquistou expressiva popularidade no século XVIII, em especial nas regiões Sudeste e Nordeste. Sua devoção esteve vinculada às demais de santos pretos, como Santo Antônio de Categeró, Santa Efigênia, Santo Elesbão e ao rei-mago preto São Baltasar. Essas devoções alcançaram milhões de devotos, em consequência do sequestro de povos africanos e escravizados no Brasil, no longo período que teve início no século XVI e terminou no XIX, quando finalmente ocorreu a “abolição da escravidão”.

No Rio de Janeiro, a Igreja de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito, edificação setecentista, foi atingida por um incêndio e posteriormente reconstruída. Nessa igreja, muitos devotos de São Benedito e dos demais santos pretos se encontram diariamente para suas preces e pedidos de proteção. Lá se encontra o Museu do Negro, reconhecido e tombado desde 1938.

 

Museu do Negro, Igreja de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito, Rio de Janeiro. Foto: Luiz Cruz.

 

Além das igrejas dedicadas a São Benedito, sua representação pode ser observada em muitos retábulos colaterais e laterais de inúmeras igrejas brasileiras. Ainda, suas esculturas também podem ser apreciadas em diversos museus, com as mais variadas soluções escultóricas, policromadas, douradas e carnadas; peças esculpidas em madeira, cerâmica e em roca – conforme registramos no Museu de Arte Sacra do Estado de Alagoas, em Marechal Deodoro, instalado no imponente e antigo Convento de Santa Maria Madalena. Essa imagem tem apenas a cabeça, os braços e os pés policromados, armados em uma estrutura de ripas.

 

São Benedito de roca, século XVIII. Museu de Arte Sacra do Estado de Alagoas,

em Marechal Deodoro. Fotografia: Luiz Cruz.

 

 


 

São Benedito, detalhes, século XVIII. Museu de Arte Sacra do Estado de Alagoas, em Marechal Deodoro. Fotografias: Luiz Cruz.


Como santo de grande popularidade, seria impossível listar as mais belas e imponentes esculturas dessa devoção tão arraigada na cultura brasileira, mas não poderíamos deixar de destacar a imagem retabular de São Benedito da Igreja de Nossa Senhora do Rosário, da primaz de Minas Gerais, a cidade de Mariana. Trata-se de belo exemplar da imaginária mineira, com soluções escultóricas de exímia qualidade.

 

São Benedito, século XVIII. Igreja de Nossa Senhora do Rosário, Mariana-MG. Fotografia: Luiz Cruz. 

 

 

A iconografia de São Benedito

 

Cada representação de São Benedito está vinculada a um dos seus milagres operados e o mais difundido é dele com o Menino Deus ao colo, quando tinham colóquios, conforme foram vistos diversas vezes no convento onde viveu.

O santo traja o hábito franciscano, que pode ser marrom ou preto, tem na cintura o cordão com os nós e o “Terço”. Em uma mão pode trazer um pão – elemento referente à sua atividade de cozinheiro conventual. Pode trazer uma cruz ou um Crucificado; ainda, flores, em arranjos, guirlandas ou em cesto. A tez sempre é preta, com os cabelos crespos.

  

São Benedito, século XVIII. Igreja de Nossa Senhora do Rosário. Serro/MG.

Fotografia: Luiz Cruz.


 

São Benedito - Da Materialidade à Imaterialidade 

 

No Brasil, a maior de todas as festas dedicadas a São Benedito ocorre em Aparecida/SP, onde se encontra uma das edificações a ele dedicada. Para homenageá-lo, centenas de guardas de congado passam um período na cidade e promovem os cortejos e as celebrações a esse santo franciscano tão querido.

 

Matriz de São Benedito, Aparecida/SP. Preparada para a festa do padroeiro.

Fotografia: Luiz Cruz.

  


Matriz de São Benedito, Aparecida/SP. Mastro para a festa do padroeiro.

Fotografia: Luiz Cruz.

 

São Benedito. Retábulo-mor da Matriz de São Benedito, Aparecida/SP.

Fotografia: Luiz Cruz.


Em Tiradentes, através de projeto proposto pelo Instituto Cultural Biblioteca do Ó, foi realizado o “Recontando o Rosário” para o resgate da festa de Nossa Senhora do Rosário, por ocasião dos 300 anos da construção da igreja, onde se encontra o retábulo colateral dedicado a São Benedito.

 

São Benedito em seu retábulo, Igreja de Nossa Senhora do Rosário,

 século XVIII. Tiradentes/MG. Fotografia: Luiz Cruz.

 

Esse projeto promoveu ampla pesquisa histórica e iconográfica sobre os santos de devoção dos pretos e instituiu a Guarda de Congado de São Benedito. O trabalho demandou tempo, dedicação e contou com o apoio financeiro da Fundação Palmares. A cerimônia da Coroação das Rainhas de São Benedito foi presidida pelo Padre José Nacif Nicolau e ocorreu a procissão de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito. Finalmente, a imagem foi retirada do retábulo e colocado no andor, quando se descobriu que os cupins já haviam consumido a parte posterior da cabeça do santo. Na ocasião seu retábulo e seu andor foram ornamentados com legumes e temperos, a homenagear o protetor dos cozinheiros. Após a procissão, os fiéis puderam levar os legumes e os temperos para as suas cozinhas.

 

Retábulo de São Benedito com legumes e temperos. Igreja de

Nossa Senhora do Rosário, Tiradentes/MG. Fotografia: Luiz Cruz.

 

Congado do São Benedito, jardim do Instituto Cultural Biblioteca do Ó, Tiradentes/MG. Fotografia: Luiz Cruz. 

 

Cortejo da Guarda de Congado de São Benedito. Tiradentes/MG.

Fotografia: Luiz Cruz.


A Guarda de Congado de São Benedito de Tiradentes não tem saído porque não conta mais com espaço físico, tudo ficou guardado. Quando o Instituto Cultural Biblioteca do Ó for contemplado com espaço / sede, as atividades serão retomadas. 

 

O Reinado de Nossa Senhora do Rosário de Oliveira/MG 

 

O Reinado ou a Festa Conga da cidade de Oliveira é uma das mais expressivas celebrações religiosas de origem afrobrasileira do Estado de Minas. Até 1929, as manifestações ocorreram na Igreja de Nossa Senhora do Rosário, que fora demolida para a construção da Catedral de Nossa Senhora de Oliveira. Ou seja, os pretos e seus descendentes perderam a principal edificação para o culto à Senhora do Rosário.

Nem por isso se abalaram. O Reinado é reconhecido como Patrimônio Imaterial de Oliveira, registrado junto ao IPAC, sob o nº 02, exercício de 2017. É promovido pela Associação Casa dos Congadeiros Geraldo e Conceição Bispo dos Santos. As solenidades têm início com o levantamento dos Mastros. No sábado, à noite, para abrir os festejos, sai o Boi do Rosário. É o boi mais amado de Minas Gerais. Uma expressiva multidão acompanha o boi e segue cantando: “Êh boi, Êh, boi, Êh boi”. Cada um tenta tocar o boi, num ato de renovar as energias e obter as bençãos da Mãe do Rosário. Há mobilização, há comoção em torno do Boi do Rosário. Depois do cortejo, o Boi fica exposto na sede do Congadeiros, até terminar as celebrações do Reinado.


Cerimônia de preparação para a saída do Boi do Rosário. Associação Casa dos Congadeiros Geraldo e Conceição Bispo dos Santos. Oliveira. Foto: Walquir Avelar.

 

Boi do Rosário. Praça XV, Oliveira/MG. Fotografia: Walquir Avelar.


O Boi do Rosário. Sede dos Congadeiros. Oliveira/MG. Fotografia: Luiz Cruz.

 

As devoções dos Congadeiros de Oliveira/MG, com São Benedito ao centro.

Sede dos Congadeiros. Fotografia: Luiz Cruz.

 

A Bandeira de São Benedito, no Mastro. Praça XV, Oliveira/MG.

Fotografia: Luiz Cruz.

 

Ao longo do Reinado, todos os dias ocorrem celebrações e cortejos. A principal praça da cidade recebe um palco, onde acontecem as coroações e homenagens. Esse ano, o grande homenageado foi o Capitão-Mor Geraldo Bispo dos Santos que completou 50 anos de trabalhos dedicados ao Reinado. Foi tudo muito forte, muito impactante.

 

Maria Eduarda, como a Princesa Isabel. Oliveira/MG. Fotografia: Walquir Avelar.


O palco do Reinado do Rosário, com o destaque para o espaço reservado para o reisado de São Benedito, na Praça XV, Oliveira/MG.

 

São Benedito no palco do Reinado do Rosário. Oliveira/MG. Fotografia: Luiz Cruz.

 

A Princesa Isabel, Maria Eduarda, coroando os reis. Reinado do Rosário, Oliveira/MG. 

Fotografia: Luiz Cruz. 

 

A jovem Maria Eduarda de Andrade Mendonça Avelar, que conhecemos desde pequenina, filha dos nossos amigos queridos Walquir e Daniela, ocupou o cargo de Princesa Isabel. Tivemos o prazer em acompanhá-la nos cortejos. Ela com muita seriedade, respeitabilidade e simpatia, saudou cada rainha, rei, princesa, príncipe, capitão, capitã e congadeiro. Fez a corte, acenou, sorriu, dançou, confraternizou com os congadeiros e o povo. Nem a chuva que caiu todos os dias tirou o brilho da Princesa Isabel, que se manteve firme e apoiou o enfrentamento às intempéries.

 

Maria Eduarda como Princesa Isabel, Oliveira/MG. Fotografia: Luiz Cruz.

 

E nesse Reinado tão grande, tão expressivo, São Benedito tem destaque e sua Bandeira sai a abrir o cortejo.

O Reinado do Rosário de Oliveira ganhou potencialidade porque o povo oliveirense tem envolvimento amplo, com a religiosidade, com afeto, com a cultura afrobrasileira, com a ancestralidade e a identidade. É impressionante a energia que cada um dedica à sua Guarda e à sua devoção. Sentimos vigor, jovialidade, espiritualidade – e o melhor de tudo, as guardas contemplam as crianças, jovens, adultos e idosos. Há uma confraternização generosa.

Os artistas locais se inspiram nas devoções e nos congadeiros para realizarem suas obras de arte. Um deles é o artista visual Sérgio Carvalho que já produziu muito sob a inspiração do Reinado. Outro é o pintor e desenhista Willian, que ornamentou a fachada da sede dos Congadeiros com cenas dos congados e tem produzido belas aquarelas sobre esse tema.


São Benedito. Pintura sobre azulejo, Sérgio Carvalho. Acervo: Luiz Cruz.

 

Congado de São Benedito. Willian, pintura sobre chapa. Acervo: Nêm Campos.

Oliveira/MG. Fotografia: Luiz Cruz.

 

 

O Santo da Cozinha

 

Cozinha mineira que se preza tem que ter a imagem de São Benedito, o protetor dos cozinheiros e das cozinheiras, o inspirador de todos que pilotam o fogão para produzir boa comida. São Benedito acreditava que cura para muitos males do corpo e da alma podiam ter solução através da alimentação saudável, com os alimentos cultivados nos quintais e preparados com capricho.

Em nossa cozinha, São Benedito está presente. Todos os dias, ele é o primeiro a receber a xícara de café, bem quentinho e cheiroso. Isso é tradição!.

 

São Benedito e sua xícara de café. Fotografia: Luiz Cruz. 

 

No sincretismo religioso, São Benedito está associado ao orixá Ossain, devido aos seus dons de cura e das folhas, da proximidade com os mistérios da natureza, pelas ações com a caridade e sua conexão com Oxalá.

A história de vida de São Benedito pode ser apreciada em diversos livros. Um deles é do Frei Alvaci Mendes Luz, que realizou profunda pesquisa sobre a Irmandade de São Benedito dos Homens Pretos, de São Paulo; através deste trabalho sério, compreendemos o tanto que essa devoção marcou a cultura dos habitantes dessa cidade. 

 


   
   

 Publicações importantes sobre São Benedito. Acervo: Luiz Cruz. 

 

No Dia 5 de outubro, celebramos mais uma vez o Dia de São Benedito, santo querido e reverenciado por muitas comunidades por esse Brasil tão gigante e tão rico de cultura e de religiosidade. Caso queira invocar lhe, faça a sua oração. 

 

 

 Oração a São Benedito

São Benedito, filho de escravos, que encontrastes a verdadeira liberdade servindo a Deus e aos irmãos, independente de raça e cor, livrai-me de toda escravidão, venha ela dos homens ou dos vícios, e ajudai-me a desalojar de meu coração toda a segregação racial e reconhecer todos os homens por meus irmãos. São Benedito, amigo de Deus e dos homens, Concedei-me a graça que vos peço de coração.

Por Jesus Cristo Nosso Senhor. Amém.

 Pai Nosso – Ave Maria – Glória.  


                                                

                                                                                                                             Luiz Antonio da Cruz

 Referências:

AUGRAS, Monique. Todos os Santos são Bem-Vindos. Rio de Janeiro: Pallas, 2005.

BOHRER, Alex Fernandes. A História dos Santos Católicos para quem tem pressa. Rio de Janeiro: Valentina, 2026.

LARA, Sandro de Resende. (Org.). Congado de Oliveira, patrimônio e Turismo. Oliveira-MG: Fundo Municipal do Patrimônio Cultural, 2023.

LUZ, Alvaci Mendes da. Um preto no altar: resistência e protagonismo em um território de disputa. Petrópolis, RJ: Vozes, 2022.

SOUZA, Aloísio Teixeira de. Vida de São Benedito. Aparecida-SP: Editora do Santuário, 1992.

Comentários

  1. Luiz, parabéns pela pesquisa, pelo texto e pelas fotos. Aprendi muito! Obrigada. Abraço. -Clarinha.

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    1. Clarinha Caldas, muito obrigado pela presença aqui. São Benedito é um franciscano muito querido e está presente em muitas igrejas brasileiras. Grande abraço para você aí no Espírito Santo.

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